Duas colheres Bini-Portuguesas

Nº de referência da peça: 
F1338, F1339

Serra Leoa
Ca. 1490-1530
Marfim entalhado
A – H.: 25,0 cm
B – H.: 17,5 cm
Proveniência A: Colecção particular, Lisboa
Proveniência B: Colecção Mayer, França e colecção particular, Lisboa

Two spoons
Sierra Leone
ca. 1490-1530
Carved ivory
A – H.: 25.0 cm
B – H.: 17.5 cm
Provenance A: Private collection, Lisbon
Provenance B: Former Mayer collection, France and private collection Lisbon

As colheres estão entre os primeiros objectos domésticos, replicando formas naturais de conchas ou folhas - e, em vez de serem partilhadas à semelhança de pratos e facas, no Renascimento eram tidas como preciosos bens individuais.
Não é pois de estranhar que as colheres, nomeadamente feitas de materiais exóticos, raros e preciosos como o marfim de elefante, estejam entre os primeiros objectos produzidos na África Ocidental para exportação para a Europa.
Os registos sobreviventes de direitos aduaneiros sobre colheres de marfim fabricadas em África, datados de 1504-1505, estão entre os primeiros registos da chegada à Europa de tais objectos feitos para exportação para o mercado português. Entre elas, contam-se cento e quarenta colheres listadas no único livro de alfândega sobrevivente elaborado pelo tesoureiro da Casa da Guiné. Embora a sua origem geográfica exacta esteja ausente destes como da maioria de outros registos contemporâneos, sabemos que os navios que as trouxeram para Lisboa partiram de São Jorge da Mina (Elmina, no actual Gana) na Costa do Ouro, mas tinham aportado também na Serra Leoa.
Entre as primeiras referências literárias a tais objectos contamos com o testemunho de Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), que, por volta de 1506, diz-nos que o povo Bullom da Serra Leoa faz as mais subtis, ou seja, as mais delicadas colheres de marfim e de melhor qualidade do que noutro qualquer lugar.
Partindo de uma análise comparativa com outras peças de marfim entalhado de semelhante qualidade, iconografia e decoração, aparentemente produzidas pelos povos Bullom, Temne e Sape da Serra Leoa, nomeadamente saleiros, olifantes (trompas de caça), píxides e garfos, estas colheres foram identificadas como sapi-portuguesas.
Em contraste com aquelas identificadas como bini-portuguesas, aparentemente feitas no Reino do Benin no século XVI (no sul da actual Nigéria), as colheres sapi-portuguesas sobrevivem em pequeno número. Apenas oito destas colheres estão incluídas no catalogue raisonée de Bassani e Fagg de 1988, enquanto apenas mais duas surgem registadas no catálogo de Bassani de 2000. As duas colheres aqui apresentadas estão ausentes das listagens de Bassani.
À semelhança de outros objectos mais recuados produzidos para exportação para o mercado português ou ibérico, estas nossas duas colheres sapi-portuguesas copiam modelos europeus (em prata ou estanho) enquanto a sua decoração, com seu repertório decorativo distintivo, trai a sua origem e simbolismo africano locais.
Entalhadas numa única presa de marfim, consistem num longo cabo e numa concha em forma de figo ou amêndoa, imitando perfeitamente o seu protótipo europeu. Tal como outras esculturas de marfim produzidas na Serra Leoa para exportação, estas duas colheres foram entalhadas com grande mestria.
Específico desta produção é a sprezzatura dos entalhadores do marfim ao explorar todo o potencial artístico do material. Cunhado no Renascimento italiano, o termo sprezzatura pode ser definido como a capacidade de aparentar indiferença e facilidade na realização de acções ou obras difíceis, ocultando conscientemente o esforço que estas exigem. Os entalhadores de marfim da Serra Leoa do século XVI testavam até ao limite, e de forma arriscada, as capacidades materiais do marfim de elefante, concebendo obras intrincadas e muito frágeis, incorporando técnicas demoradas e difíceis, como o vazado.
A - A maior das duas colheres é decorada de forma simples com grandes elementos em forma de contas ou nós intercalados no cabo, um vazado como se fosse feito em fio metálico.
Uma colher de marfim entalhada em tudo semelhante surge representada numa pintura coeva, de Gregório Lopes (†1550), representando A Morte da Virgem. Pintura a óleo sobre madeira de carvalho de cerca de 1527, faz parte de um grande retábulo pintado para o Convento do Paraíso em Lisboa e pertencente ao Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa (inv. 15 Pint). Representado com tanta precisão pelo pintor da corte, Gregório Lopes, este tipo de colher deve ter sido muito utilizado em Lisboa, o que as recentes escavações arqueológicas na cidade confirmaram com ampla evidência. Esta nossa colher é idêntica também a um raro exemplar do British Museum em Londres (inv. Af1856,0623.164). Medindo 21,2 cm de comprimento, a principal diferença reside na forma da concha, já que a de Londres replica de forma mais perfeita o protótipo metálico europeu.
B - Ao contrário da primeira, a colher de menores dimensões inclui decoração figurativa, pois retrata uma figura masculina encostada ao cabo. Entalhada e vazada, a figura é retratada de pé com as mãos levantadas e juntas abaixo do queixo, em pose austera.
Esta figura assemelha-se a uma outra de um fragmento de colher, provavelmente ainda em colecção particular, listada no catálogo de Bassani de 2000 sob o n.º 764. Ao contrário da nossa colher, o seu cabo é entalhado também com nó complexo - um “8”, embora não vazado como noutros exemplares remanescentes. À semelhança do seu protótipo de metal português, a haste da nossa colher mais pequena une-se à concha em forma de amêndoa numa típica “cauda de rato”.
É provável que, à semelhança da representação de europeus noutras peças sapi-portuguesas, na nossa colher se faça representar também um português. Não apenas o tipo de figura, o rosto barbado e o corte de cabelo corresponde a uma figuração europeia das primeiras décadas de Quinhentos, como também o vestuário é ibérico (gibão e um saio acoletado). Já o gesto, de mãos postas encostadas junto ao peito, pode significar devoção religiosa. Ao contrário da produção bini-portuguesa onde esta é abundante, pela sua natureza apotropaica enquanto símbolo de protecção, nas peças produzidas na Serra Leoa figuração de portugueses é de grande raridade.
É por um lado um poderoso testemunho do fascínio que os europeus exerceram sobre as populações locais, e por outro uma evidência da vontade destes portugueses (oficiais da coroa, soldados, ou marinheiros) se fazerem representar nestes exóticos souvenirs.
Esta colher pertenceu à coleção de Claude Mayer, Paris e posteriormente a duas importantes coleções portuguesas, no Porto e em Lisboa.

Hugo Miguel Crespo

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Based on natural shell or leaf shapes, spoons are amongst the earliest domestic utensils that, rather than being shared as much as plates or knives, were, during the Renaissance, treasured personal possessions.
It is therefore unsurprising that spoons, made from exotic, rare and precious materials such as elephant ivory, were some of the first objects produced in Western Africa for exporting to Europe.
Extant records referring customs duties on African made ivory spoons, dating from 1504-1505, are amongst the first mentions to such objects made for the Portuguese market. These records include one hundred and forty spoons listed in the sole surviving customs book drafted by the treasurer of the Casa da Guiné (Guinea Customs House). While their exact geographical origin is not registered, we now know that the ships that carried them to Lisbon, set off from São Jorge da Mina (Elmina, in present-day Ghana) on the Gold Coast but called at Sierra Leone.
One of the earliest literary references to such objects is the one by Duarte Pacheco Pereira (1460-1533) who noted, around 1506, that the Bullom people of Sierra Leone made the most delicate ivory spoons, and of better quality than in any other place. Drawing from a comparative analysis with other surviving ivory carvings of similar workmanship, iconography and decorative motifs produced by the Bullom, Temne and Sape peoples of Sierra Leone, namely salt cellars, oliphants (hunting horns), pyxes and forks, the two spoons herewith described have been classified as Sapi-Portuguese.
Compared with others identified as Bini-Portuguese and made in the 16th century Kingdom of Benin (in present-day south Nigeria), Sapi-Portuguese spoons survive in considerably smaller numbers. Only eight such spoons are listed in Bassani and Fagg’s 1988 catalogue raisonée, with only two more are recorded in Bassani’s 2000 catalogue. Both our spoons are absent from these inventories.
Not unlike other early objects made for exporting to the Portuguese or Iberian markets, these two Sapi-Portuguese spoons follow European prototypes (in silver or pewter), whereas their decorative grammar, with its distinctive repertoire, betray their local African origin and symbolism.
Carved from a single piece of ivory, they comprise a long handle and a fig, or almond-shaped bowl that perfectly mimic European spoons. Like other Sierra Leone ivory objects for export, these two spoons are masterfully carved.
Specific to this production is the ivory carvers sprezzatura when exploring the material’s potential. Coined in the Italian Renaissance, sprezzatura may be defined as the ability to display an effortless facility in accomplishing difficult actions. The 16th century Sierra Leone ivory carvers tested the material viability of elephant ivory to its limit, conceiving intricate, fragile designs that incorporated time-consuming and demanding techniques such as openwork.

A - The longest of the two spoons, its handle is simply decorated with large, interspersed bead-shaped elements or knots, one in openwork as if made from metal wire.
A matching carved ivory spoon is depicted on a contemporary painting representing The Death of The Virgin, by Gregório Lopes (†1550). An oil painting on oak panel, dating from approximately 1527, it is part of a large altarpiece made for the Convent of Paraíso in Lisbon, now at the Museu Nacional de Arte Antiga in Lisbon (inv. 15 Pint). Portrayed by the court painter with such precision, it is possible to assume that such spoons must have been widely used in Lisbon at the time, a fact that seems to be confirmed by recent archaeological research in the city.
Our larger spoon is also similar in design to a rare example in the British Museum, London (inv. Af1856,0623.164). At 21.2 cm, its main difference however, resides in the bowl, which is more closely related to the original metal prototypes.

B - Contrary to the previous, this smaller spoon includes figurative decorative motifs representing a male figure leaning against the handle. Carved in openwork, the figure is standing with his hands raised and meeting under the chin, in a somewhat austere pose.
This figure is similar to a spoon fragment, possibly still in a private collection that is listed in Bassani’s 2000 catalogue under no. 764. In contrast to our spoon, its handle is more densely carved with a complex knot - a figure-of-eight, albeit not carved in openwork as is the case with other extant examples. Like its Portuguese metal prototype, the spoon’s shaft joins the almond-shaped bowl in rattail.
Similarly to depictions of Europeans in other Sapi-Portuguese objects, it is possible that the figure represented was intended to be a Portuguese. This can be assessed not only by the type of figure of bearded face and haircut that correspond to early 16th century Europeans, but also by its doublet and skirted jacket attire that reflects contemporary Iberian men’s fashion. The hands position, joined against the chest, may indicate religious devotion or praying.
Unlike in the Bini-Portuguese production, where it is abundant due to its apotropaic nature as symbol of protection, the depiction of Portuguese figures in pieces produced in Sierra Leone is very rare. As such, it is a powerful testimony to the appeal that Europeans exerted on local populations, while simultaneously pointing to the desire of these Portuguese (crown officials, soldiers, or sailors) to have themselves portrayed in these exotic souvenirs.
This spoon belonged to the Claude Mayer collection in Paris and later to two important Portuguese private collection In Oporto and in Lisbon respectively.

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Marfim, Tartaruga e Madrepérola

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