Escritório

Nº de referência da peça: 
F1326

Teca, sissó, marfim, osso tingido de verde, e ferro; ferragens em ferroÍndia, Guzarate, séc. XVI (finais)
Dim.: 34,0 x 49,0 X 35,5 cm

Fall-front writing cabinet
Teak, ebony, ivory, green-dyed bone, brass, and iron; gilt copper fittingsIndia, Gujarat, late 16th century
Dim.: 34.0 x 49.0 X 35.5 cm

Este raro e importante escritório de tampo de abater foi produzido no Guzarate para o mercado português na segunda metade do século XVI, replicando protótipo europeu e constitui um importante testemunho da presença portuguesa na costa ocidental indiana pela rara iconografia, já que representa não apenas portugueses em actividade de caça ao ar livre, mas também a cavalo.
De estrutura em teca (Tectona grandis), é faixeado a sissó (Dalbergia latifolia) e decorado com embutidos de marfim e osso tingido de verde.
As ferragens de ferro forjado incluem duas pesadas gualdras, os espelhos das fechaduras da frente e da gaveta central interior em forma de águia bicéfala ou gandabherunda - ave mitológica hindu imbuída de força mágica utilizada para afastar o mal e proteger as preciosidades aí contidas - e os puxadores das gavetas no interior.
A decoração das faces exterior e do interior do tampo de abater é em tapete, com cenas figurativas no campo central e larga cercadura de enrolamentos vegetalistas de rosetas de oito pétalas e de folhas em forma de vírgula, típicas desta produção de guzarate e partilham a mesma iconografia em dois registos.
No registo superior, também totalmente preenchido por árvores floridas, destacam-se figuras de portugueses dispostos em simetria - dois homens vestindo roupeta, calças largas, colarinho (ou mantéu) de abanos e chapéu alto sentados em cadeiras e com copos de vinho na mão - ladeados pelo seu servidor – que usa o mesmo tipo de vestimenta e com lança em riste.
O registo inferior representa uma cena de caça por entre árvores floridas prenhes de folhas e aves: dois antílopes-indianos, conhecidos por antílopes-negros (Antilope cervicapra), em fuga, perseguidos por um tigre de Bengala (Panthera tigris tigris), que é por sua vez seguido por um caçador em traje islâmico local - jama (casaco), pay-jama (calças ajustadas), patka (faixa de cintura) e kulahdar (pequeno turbante) - que lhe aponta com arco e flecha.
O topo e ilhargas apresentam cenas semelhantes. Na parte superior, portugueses a cavalo e seus servidores locais, trajando aqui à islâmica e, na inferior, pares de lebres afrontadas.
O tardoz, por sua vez, embora também com registo inferior com lebres, apresenta dois casais afrontados vestidos à islâmica, provavelmente indicando o carácter nupcial deste tipo de objectos.
Quando aberto, o escritório apresenta oito gavetas dispostas em quatro fiadas simulando nove, sendo uma quadrada ao centro de maiores dimensões e com fechadura individual. A decoração embutida da frente das gavetas consiste em plantas floridas ladeadas por lebres afrontadas; à semelhança da decoração da frente e do interior do tampo, os embutidos incluem osso tingido de verde, emprestando maior riqueza e contraste à superfície marchetada.
A par dos contadores de mesa e estrado, este escritório copia um protótipo europeu que granjeou lugar de destaque entre as peças mais prestigiadas de mobiliário de conter no século XVI. O tampo de abater formaria uma superfície apropriada à escrita, enquanto as gavetas dão acesso aos objectos preciosos e instrumentos de escrita nelas contidas.
Este tipo de mobiliário de luxo foi predominante na decoração de interiores das famílias nobres e patrícias e, peças de mobiliário portáteis como esta, tornar-se-iam requisito fundamental para os funcionários europeus, mercadores e comerciantes que viviam e viajavam pela Ásia.
A execução deste género de mobiliário produzido na Ásia com materiais exóticos e dispendiosos como o precioso ébano, seram muito admirados e avidamente procurados na Europa, devido não só à sua forma, mas também à sua perfeição técnica e riqueza decorativa. A produção deste tipo de mobiliário centrou-se no noroeste da Índia, nomeadamente no Guzarate.

Hugo Miguel Crespo

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This important Gujarati fall-front writing box, copying a European prototype, was made for the Portuguese market in the second half of the sixteenth century. Its unusual iconography, including not only Portuguese figures engaging in hunting pursuits but also others on horseback, is a particularly illustrative testimony of the Portuguese presence in the western coast of India.
Made from teak (Tectona grandis), it is veneered in East Indian rosewood (Dalbergia latifolia) and ornamented with ivory and green-dyed bone inlays. Its wrought iron fittings include two heavy side handles, lock escutcheons shaped as double-headed eagles or gandabherunda - Hindu mythological bird believed to be endowed with magical strength that wards off evil and protects the box contents – and drawer pulls.
The outer elevations, as well as the inner fall-front surface, follow a carpet-like decorative composition of central figurative scenes framed by a wide border of floral scrolls, eight-petaled rosettes and comma-shaped leaves, typical of this Gujarati production. The front panel and the inner fall-front, share the same iconography arranged in two registers.
The upper section, densely filled with flowering trees, portrays male figures in Portuguese attire arranged symmetrically: the figures, dressed in long-sleeved jerkins (roupetas), baggy pants, linen ruff collars and tall hat, sit on chairs holding glasses of wine, each flanked by servants in similar costume and holding spears. The top and sides depict stylistically similar scenes but featuring Portuguese on horseback accompanied by local servants in Islamic attire, in the upper register, and pairs of hares in the lower section.
The lower register depicts a hunting scene among flowering trees teeming with leaves and birds: two Indian antelopes, known as blackbucks (Antilope cervicapra), run from a Bengal tiger (Panthera tigris tigris), which in turn is chased by a hunter dressed in Islamic fashion - jama (coat), pay-jama (tight-fitting trousers), patka (waist sash) and kulahdar (small turban) - who aims at the tiger with a bow and arrow.
The back, similarly segmented in two registers, the lower featuring hares, portrays two face-to-face couples in Islamic attire, a detail probably highlighting the nuptial nature of this type of box.
When open, the cabinet reveals eight drawers arranged in four ranks, mimicking nine, the larger central squared drawer fitted with individual lock. The drawer fronts inlaid decoration consists of flowering bushes flanked by facing hares; and similarly to the decoration on the front and interior sides of the fall-front, it includes green-dyed bone inlays lending greater sophistication and contrast to the decoration.
Alongside table and dais cabinets, the present writing box is modelled after a European prototype that ranked amongst the most prestigious sixteenth century pieces of storage furniture. The hinged fall-front, when open, would create a writing surface, while the many drawers gave access to what was kept in its multiple compartments, including writing paraphernalia. This type of furniture was prevalent in the interior furnishings of European noble and patrician households and portable pieces of furniture of this type were a basic requirement for European officials, merchants and traders living and travelling in Asia. Objects of this type made with exotic and expensive raw materials, such as ebony, were much admired and avidly sought after in Europe, due to their appealing design as well as technical perfection. The production of this type of furniture was based in north-western India, namely in Gujarat.

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