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Contador de duas portas Indo-Português, Índia Portuguesa, provavelmente Taná; ca. 1570-1600

teca, ébano, sissó, sândalo, marfim, osso, latão, ferro e cobre dourado
49.0 × 36.0 × 35.5 cm
F1445
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Este notável contador de duas portas em teca (Tectona grandis), faixeada a ébano (Diospyros ebenum) e decorado com embutidos em sissó (Dalbergia latifolia), sândalo (Santalum album), marfim de elefante e osso tingido de verde, foi provavelmente produzido na aldeia de Taná. As suas ferragens vazadas em cobre dourado incluem cantoneiras, três dobradiças com decoração floral em cada porta, espelhos de fechadura ovais nos gavetas interiores e seus puxadores, duas gualdras nas ilhargas, produzidas por fundição, e um monumental espelho de fechadura frontal. Este, de excecional qualidade, é bipartido e recortado em cartela polilobada, delimitado em cima e em baixo por quatro peixes-dragões da mitologia hindu, a lendária criatura marinha conhecida por makara. De carácter islâmico, o delicado fundo vazado do espelho de fechadura apresenta intrincado padrão floral com flores-de-lótus estilizados e folhas fendidas, características do repertório ornamental do período timúrida internacional.

Este raro contador apresenta uma minuciosa decoração em todas as faces, seguindo composição em tapete, à excepção do tardoz - deixado liso, faixeado a sissó com seu belo veio natural. Todas as faces exteriores decoradas apresentam estreitas cercaduras de quadrifólios alternando em marfim e sândalo, bem como largas cercaduras de enrolamentos vegetalistas com terminais em cabeça de dragão e folhas serrilhadas. Grandes rosetas estreladas marcam os pontos médios, enquanto os cantos são pontuados por nāgiṇī, figuras da mitologia hindu com tronco e cabeça de mulher, tocando os seios como símbolo de fertilidade, e corpo em cauda de serpente dupla enrolada. Os campos centrais apresentam grandes plantas floridas emergindo de vasos, gravadas e avivadas com mástique vermelho e preto. O interior das portas obedece a uma composição distinta: um largo campo central enquadrado por friso de quadrifólios alternados. Nestes campos centrais erguem-se imponentes plantas floridas saindo de vasos - com flores de diferentes formas, povoadas por aves pousadas - ladeadas por figuras femininas. Estas parecem trajadas à europeia, adornadas com jóias e usando chapéus de aba e copa arredondada (gorra em castelhano). A par do imponente espelho de fechadura - excepcional na composição como na execução -, a inclusão de figuras humanas de grande escala é extremamente invulgar, contribuindo para a relevância histórica desta rara peça. Aberto, o contador revela cinco gavetas (a fiada inferior simulando seis, por razões de simetria), dispostas em três renques, sendo a gaveta inferior longa destinada a guardar documentos e papéis. As frentes das gavetas repetem a mesma composição em tapete, com frisos estreitos de quadrifólios alternando em marfim e sândalo, e campos centrais decorados com enrolamentos vegetalistas de folhas serrilhadas com remate em cabeça de dragão. A decoração vazada dos espelhos de fechadura individuais segue aqui também o elaborado padrão floral timúrida.

Este tipo de contador de duas portas, copiando modelos europeus dos séculos XVI e inícios de Seiscentos - hoje de extrema raridade -, foi produzido para exportação em madeiras exóticas e duráveis de grande efeito decorativo em diversos centros de produção na Índia Portuguesa, como Goa, Cochim e outros pontos da costa ocidental. A documentação portuguesa do século XVI refere a povoação de Taná - hoje integrada na grande metrópole de Mumbai (Bombaim) -, onde prosperava uma importante comunidade de artífices muçulmanos, como centro de mobiliário marchetado precioso. É, portanto, provável que o centro de produção do presente contador tenha sido Taná, povoação então integrada na Província do Norte do Estado Português da Índia.[1] Esta peça insere-se num grupo excepcional de raras e recuadas peças de mobiliário destinadas ao mercado português, cuja origem geográfica, fontes decorativas e contexto histórico de produção apenas recentemente foram identificados.[2] Conhece-se outro contador de duas portas deste tipo, diferindo na compartimentação interior, mais próxima de um protótipo extremo-asiático. Ostenta também uma exuberante decoração de vasos floridos - com leões heráldicos, coelhos e pavões -, cujas ferragens em cobre dourado, embora inspiradas em modelos chineses e japoneses, são de concepção local. Pertence à colecção da Casa Marta Ortigão Sampaio (inv. 78.67.02), integrada no Museu da Cidade, Porto.[3]


[1] Quanto a Taná sob domínio poruguês, veja-se Sidh Losa Mendiratta, “Two Towns and a Villa. Baçaim, Chaul and Taná: The Defensive Structure of Three Indo-Portuguese Settlements in Northern Province of the Estado da Índia”, in Yogesh Sharma, Pius Malenkandathil (eds.), Medieval Cities in India, Nova Delhi, Primus Books, 2014, pp. 805-814.

[2] Hugo Miguel Crespo, Choices, Lisboa, AR-PAB, 2016, pp. 136-171, cat. 15; e Idem, India em Portugal. Um Tempo de Confluências Artísticas (cat.), Porto, Bluebook, 2021, pp. 88-105.

[3] Idem, Da Província do Norte. Marchetados e Axaroados da Índia Portuguesa, Lisboa, São Roque Antiguidades & Galeria de Arte, 2024, pp. 17-19, figs. 11-13.

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