Taça de libação feita com chifre de rinoceronte chinês, China; séculos XVII-XVIII
Literature
Peças semelhantes: The complete Collection of Teasures of the Palace Museum, Bamboo, wood, ivory and rhinoceroshorn carvings, Beijing, 2001,p.152, cat. no.134; Fine Asian Art, 18thNov.2021, lot 8, H.G. Beasley collection (18881-1939)Esta taça de belas proporções, produzida na China do século XVII a partir de uma única peça de corno de rinoceronte - talvez o corno posterior de um rinoceronte-de-Sumatra (Dicerorhinus sumatrensis) - foi tingida e polida para revelar uma tonalidade lustrosa, quente, dourado-avermelhada, de cor canela, ligeiramente mais escura no centro. Assente sobre pé oval, baixo e um tanto extravasado, com base reentrante, a taça apresenta corpo afunilado e largo bico, decorado com frisos de ‘gregas’ chinesas sob e por cima do rebordo. O corpo afunilado é finamente entalhado em baixo-relevo com uma faixa de máscaras tāotiè arcaizantes e estilizadas - criatura mitológica chinesa associada à gula - sobre fundo de ‘gregas’ chinesas, um padrão conhecido por léiwén (literalmente, ‘padrão do trovão’). Animados chīlóng entalhados em alto-relevo - um ‘dragão sem cornos’ ou ‘jovem dragão’ - galgam pelos lados, enquanto um maior, formando a asa curva (chīniǔ) da taça, assoma-se sobre o interior liso e polido. Num dos lados, sobrepondo-se ao fundo de léiwén e quase galgando o rebordo, vemos uma fénix estilizada em pleno voo (fènghuáng).
Esta taça entalhada em corno de rinoceronte replica um tipo de vaso em bronze conhecido em chinês por gōng, um vaso sacrificial arcaico. Concebido para misturar vinho com água, o gōng servia para armazenar e verter vinho de arroz em banquetes rituais, no âmbito do culto aos antepassados, sendo com frequência depositado como oferenda em sepulturas de indivíduos de elevado estatuto social. O gōng em regra apresenta um largo rebordo, bico saliente alinhado com uma asa vertical na parte posterior, erguendo-se sobre um único pé oval ou, mais raramente, sobre quatro pés. Acreditava-se que os vapores do vinho eram consumidos pelos espíritos dos mortos, enquanto o conteúdo físico era partilhado pelos vivos. Vasos arcaicos de bronze deste tipo, produzidos entre as dinastias Shang e Zhou (c. 1700–c. 900 a.C.), apresentam amiúde formas zoomórficas, com tampa inteiramente modelada como animal - ausente das versões posteriores em porcelana e corno de rinoceronte - e asa vertical em forma animal, oposta ao bico. Depois de meados do período Zhou Ocidental, o gōng passou a ser utilizado como vaso para água, adoptando o nome yí.[1] Sem tampa e assente sobre quatro pés, o yí apresenta a forma de meia cabaça com asa. Usado em conjunto com bacias planas (pén), servia para conter e verter água para a ablução ritual das mãos.
Na China, as taças em corno de rinoceronte eram peças de colecção de grande apreço, oferecidas com frequência a eruditos de mérito. A sua produção, em particular em oficinas de cidades do sul, como Guangzhou, floresceu do final da dinastia Ming ao início da dinastia Qing, entre os finais Quinhentos e o século XVIII.[2] Entalhadas na China desde a dinastia Tang (618-907) - talvez como vasos sacrificiais - e estimadas na Ásia desde a Antiguidade pelos supostos poderes mágicos e qualidades medicinais enquanto antídoto para veneno, taças de corno de rinoceronte foram muito cobiçadas na Europa do Renascimento tardio. Investigação de arquivo demonstra como tais taças, e mesmo cornos inteiros importados em grande quantidade, foram avidamente coleccionadas na corte de Lisboa nos séculos XVI e XVII.[3] Duas taças em corno de rinoceronte entalhado, modeladas a partir de vasos arcaicos em bronze, foram legadas em 1753 ao British Museum, Londres, por Sir Hans Sloane (1660-1753), médico e coleccionador irlandês cuja biblioteca e colecção constituíram o núcleo fundador da instituição. Com forma idêntica, de rebordo extravasado - ainda que sem o bico saliente característico dos exemplares da Idade do Bronze e da taça aqui apresentada -, as taças de libação de Hans Sloane (invs. SLMisc.143 e SLMisc.158) datam, o mais tardar, das últimas décadas do século XVII. O conspecto geral e os motivos ornamentais da primeira das taças de Sloane aproximam-se bastante dos da presente peça, apresentando asa vertical em forma de chīlóng, frisos de ‘gregas’ chinesas sob sob e por cima do rebordo, bem como na base do pé, e uma faixa central com máscaras tāotiè estilizadas sobre um fundo de padrão de losangos (léiwén).
[1] Ma Chengyuan, “The Splendor of Ancient Chinese Bronzes”, in Wen Fong (ed.), The Great Bronze Age of China. An Exhibition from the People’s Republic of China (cat.), Nova Iorque, The Metropolitan Museum of Art - Alfred A. Knopf, 1980, pp. 1-19, na p. 14
[2] Sobre esta produção, veja-se Jan Chapman, The Art of Rhinoceros Horn Carving in China, Londres, Christie’s Books, 1999.
[3] Hugo Miguel Crespo (ed.), À Mesa do Príncipe. Jantar e Cear na Corte de Lisboa (1500-1700). Prata, madrepérola, cristal de rocha e porcelana, Lisboa, AR-PAB, 2018, pp. 232-237, cat. 30.
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