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Cofre Indo-Português, Índia, Guzarate e Goa (ferragens), 2ª metade séc. XVI

Tartaruga e prata
21.0 × 9.5 × 9.5 cm
F1187
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Raro cofre em tartaruga, de corpo paralelepipédico e tampa prismática, uma das tipologias de cofres que os artífices guzarates mais copiaram. Segue, quanto ao modelo, cofres europeus em madeira revestida a cuir bouilli, protegidos por bandas de ferro.
Montagens, em prata cinzelada, protegem as arestas da caixa. As bandas são decoradas por friso de escamas embrincadas (nos extremos laterais da tampa e nas duas horizontais do topo da tampa) ladeado por friso recortado de escamas ou plumas. As cantoneiras, recortadas em forma de palmeta, fazem elevar a o cofre nos cantos, protegendo o fundo de tartaruga, e são decoradas com enrolamentos vegetalistas e animais sobre fundo raiado de gosto europeu.
A fechadura é em caixa quadrangular com espelho recortado em cartela e lingueta na forma característica de lagarto. A decoração cinzelada das cantoneiras, da fechadura e das três dobradiças do tardoz (ornamentadas com enrolamentos vegetalistas, aves e animais) seguem, no seu esquematismo e simplicidade, para gravuras europeias do Renascimento, sendo que, apenas a forma das cantoneiras, remeta para as artes sumptuárias do Decão.
Este raro e precioso cofre da segunda metade do século XVI, utilizado originariamente como guarda-jóias, foi totalmente produzido com placas de tartaruga translúcida de cor dourada, sem as características manchas que associamos tradicionalmente a este material exótico. Ao contrário do que usualmente sucede, este nosso cofre foi produzido não com as escamas dorsais da tartaruga, mas com as ventrais, desprovidas de manchas. Denomina-se autoplastia, por indução térmica, o processo físico pelo qual o material passou até se produzirem placas destas dimensões e espessura, sem juntas observáveis.
Ao contrário do que se tem afirmado, é possível identificar com certeza a espécie animal da qual proveio o material deste e de todos os outros cofres produzidos seguramente no Guzarate, em Cambaia ou Surate, por este método[1]. Isto porque das duas espécies de tartaruga marinha utilizadas na produção de objectos decorativos desde tempos imemoriais na Ásia, a tartaruga-verde (Chelonia mydas) e a tartaruga-de-pente ou tartaruga-de-escamas (Eretmochelys imbricata), apenas a última permite a autoplastia[2].
Contrariamente também ao que alguns autores têm afirmado, estes cofres são totalmente autoportantes, não carecendo de montagens para assegurar a sua funcionalidade[3]. Isso significa que, em muitos casos, como é o caso do presente cofre, as aplicações de prata não tenham sido produzidas no Guzarate, mas noutras regiões da Índia – frequentemente em Goa - ou mesmo na China[4].
Danificada a tampa provavelmente pouco depois da produção do primitivo cofre de tartaruga, esta foi reforçada localmente com a aplicação de uma fina chapa de prata que percorre a face de topo da tampa.
Uma das mais antigas referências documentais a este tipo de cofres de tartaruga é o que surge no inventário post mortem de Afonso de Castelo Branco, meirinho-mor da corte, de 1556: “hũu quoffre de tartaruga guarnjcido de prata vall - dois mil reais”[5].
Um cofre, com a mesma forma, de cariz igualmente europeia, e semelhante decoração cinzelada nas montagens de prata, assim como nas suas cantoneiras elevadas, foi recentemente publicado[6]. Este exemplar, produzido com tartaruga mosqueada, outrora pertenceu às colecções de Alfredo Guimarães e à de Arthur de Sandão.; Um um outro cofre, com a mesma forma e uma decoração mais de carácter local quanto às montagens de prata, realizado integralmente com placas ventrais da tartaruga-de-escamas, pertence ao Victoria and Albert Museum, Londres (inv. M.10&A-1945).
O presente cofre, muito raro pelo uso da tartaruga desprovida de manchas, pertenceu à colecção de Luís Cristiano Cinatti Keil (1881-1947), filho do pintor Alfredo Cristiano Keil (1850-1907), que foi conservador e director interino do Museu Nacional de Arte Antiga e director do Museu Nacional dos Coches, tendo-se mantido na colecção da família até à presente data.


Hugo Miguel Crespo
Centro de História, Universidade de Lisboa


Bibliografia:


CAUNES, Lison de, Jacques Morabito, L'écaille. Tortoiseshell, Paris, Éditions Vial, 1997.
CRESPO, Hugo Miguel, Jewels from the India Run (cat.), Lisboa, Fundação Oriente, 2015.
CRESPO, Hugo Miguel, Choices, Lisboa, AR-PAB, 2016.
FELGUEIRAS, José Jordão, "Uma Família de Objectos Preciosos do Guzarate. A Family of Precious Gujurati Works", in Nuno Vassallo e Silva (ed.), A Herança de Rauluchantim. The Heritage of Rauluchantim (cat.), Lisboa, Museu de S. Roque - Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1996, pp. 151-153.
FRAZIER, J., "Exploitation of Marine Turtles in the Indian Ocean", Human Ecology, 8.4, 1980, pp. 329-370.
JAFFER, Amin, Luxury Goods from India. The Art of the Cabinet-Maker, London, V&A Publications, 2002.


[1] José Jordão Felgueiras, "Uma Família de Objectos Preciosos do Guzarate. A Family of Precious Gujurati Works", in Nuno Vassallo e Silva (ed.), A Herança de Rauluchantim. The Heritage of Rauluchantim (cat.), Lisboa, Museu de S. Roque - Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1996, pp. 151-153.
[2] Lison de Caunes, Jacques Morabito, L'écaille. Tortoiseshell, Paris, Éditions Vial, 1997; e J. Frazier, "Exploitation of Marine Turtles in the Indian Ocean", Human Ecology, 8.4, 1980, pp. 329-370, ref. p. 350
[3] Amin Jaffer, Luxury Goods from India. The Art of the Cabinet-Maker, London, V&A Publications, 2002, cat. 2, p. 17.
[4] Hugo Miguel Crespo, Jewels from the India Run (cat.), Lisboa, Fundação Oriente, 2015, p. 65.
[5] Hugo Miguel Crespo, Jewels [...], pp. 65-67.
[6] Hugo Miguel Crespo, Choices, Lisboa, AR-PAB, 2016, cat. 14, pp. 130-135.
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