Leque mandarim, China, séc. XIX
papel guache, metal, filigrana de prata e ouro, esmalte cloisonné verde e azul
⌀ 56.0 cm
F1225
Leque usualmente designado por “Mandarim”, com duas guardas e catorze varetas - em latão dourado e filigrana de prata vazada com aplicações de esmalte “cloisonné” – onde assenta dupla folha de papel sobreposta, plissada e pintada a guache e ouro. As varetas estão unidas por uma argola segura com rebite metálico, de onde pende um cordão em seda verde, com nós “sem fim” entrelaçados e duas bolas de jade, terminado em duas borlas, uma vermelha e outra amarela.O anteverso da folha do leque tem três reservas. A central representa uma paisagem fluvial bastante original e inédita, que atribuímos ao delta do Rio das Pérolas, trajeto obrigatório dos barcos europeus que viajavam até Cantão, como testemunha o mapa de 1841, onde estão implantados os navios de guerra ingleses . Destaca-se em primeiro plano a ilha de Ersha com o seu forte e, na sua frente e do outo lado do rio, o ancoradouro de Whampoa e a ilha de Honam - ou Henan – com o seu pagode (Chigang). Junto à fortaleza de Ersha observamos cinco chineses com penteado manchú - calvos, com cabelo entrançado apenas na parte posterior da nuca – e algumas sampanas atracadas. Mais longe, vários barcos chinos e estrangeiros ancorados.A ilha de Ersha era também conhecida como ilha Napier, em homenagem a William John Napier (1786 – 1834), o primeiro superintendente-geral do comércio em Cantão, nomeado pelo governo britânico em 1834, após a abolição do Monopólio da Companhia Britânica das Índias Orientais.Ao chegar a Macau, Napier desafiou as autoridades chinesas, recusando-se a pedir autorização oficial para se deslocar a Cantão, local onde todo o comércio com o ocidente se desenrolava, mediado pelos hongs . Quando chegou a esta cidade, solicitou ser recebido por Lu Kun (1772-1835) – o vice-rei de Liangguang – que, não só se recusou, como o obrigou a regressar a Macau.Em resposta, o Lord inglês ordenou que três fragatas navegassem até Whampoa – o ancoradouro dos navios estrangeiros - o que originou um conflito armado entre os navios britânicos e as baterias chinesas terrestres. Esta ofensiva levou Lu Kun a decretar a interdição do comércio com a Grã-Bretanha e a expulsar os ingleses de Cantão. A escalada armada só terminou devido ao falecimento inesperado de Napier. Este incidente será o casus belli que estará na origem da Primeira Guerra do Ópio (1839 – 1842) conduzindo à ocupação da ilha de Ersha, e que terminou com a captura Cantão em 1841 pelas tropas britânicas. Em frente ao forte, atravessando o rio, chegamos à ilha de Honam. O pagode foi construído em 1619 durante o reinado do Imperador Wanli (1572-1620), supostamente para espelhar o “Pagode de Whampoa” (na ilha de Pazhou) e trazer “boa sorte” ao porto de Cantão. Junto à margem do rio navegam três barcos chineses (um junco e duas sampanas) e está ancorado um clipper a vapor com bandeira (red ensign) britânica. Mais ao longe reconhecem-se outros navios estrangeiros com altos mastros.Este grande quadro está cingido por moldura oval polilobada de ramos vegetalistas, entrelaçados ao nó “sem fim” ou do destino, pressagiando bom augúrio, harmonia e longevidade às terras representadas nesta vista panorâmica. Ladeiam-no duas reservas com cenas de corte, em molduras idênticas abraçadas lateralmente por dois morcegos – símbolo de alegria, felicidade, boa sorte e, de dupla fortuna quando afrontados – e por uma flor de lótus na parte inferior, metáfora de riqueza e fertilidade.Nestas cartelas, todos os figurantes têm rostos marfim – recortados e pintados – e indumentárias de seda, ornamentadas com maravilhosos elementos decorativos pintados. Os trajes seguem os usados na antiga etnia Han, como é usual neste tipo de acessório. As figuras femininas usam penteados sofisticados adornados com pérolas e seguram leques, atributos de realeza. As três molduras estão envolvidas por inúmeros motivos simbólicos que seguem as tradições e costumes da herança cultural chinesa ou representam-se insígnias auspiciosas budistas: a roda de Lei (falun) apoiada em suásticas (Wàn) e nuvens (Yún) numa alegoria à eterna renovação do coração infinito de Buda - sinal de proteção, bom augúrio, autoridade e longevidade; o vaso (guan), num desejo de boa sorte e harmonia perpétua; e a sombrinha, metáfora de dignidade. A eles estão ligados tesouros dos literatos, como o ceptro de ruyi – ambicionando sucesso, prosperidade, longevidade e imortalidade, ou os livros e rolos de pergaminho, incarnando a ciência e imprescindíveis na atividade dos eruditos e estudiosos. Completam esta panóplia os que são normalmente associados aos oito imortais, como as castanholas do mítico taoista Cao Guojiu (Cao Yi), - patrono do teatro - e o leque, atributo de Zhongli Quan - o mais idoso dos imortais, capaz de fazer reviver os mortos, transformar pedras em ouro e prata e com poderes para salvar a China da fome. Alguns exemplos dos “Oito Objectos Preciosos” – representações populares na arte chinesa - também aqui estão reproduzidos, como a pedra sonora de jade, insígnia da justiça e perfeição, e a moeda, num anseio de fortuna. Não faltam animais como o sapo – emblema do inatingível, sempre evocado quando se deseja obter riqueza, ou flores como a peónia (fukeihua) e a flor de lótus (lian) que quando unidas indicam longos anos de saúde e riqueza.No verso do leque a folha é integralmente ocupada por cenas palacianas que ocorrem nos varandins de vários pavilhões, baseadas no Romance dos Três Reinos, escrito por Luo Guanzhong no século XIV. Esta obra retrata os anos turbulentos do final da dinastia Han e do Período dos Três Reinos (c. 169 a 280 d. C.) , num novo género de modelo literário que, com base em acontecimentos históricos, narra um sem fim de peripécias em que participavam personagens fantásticas e outras que existiram na realidade. Sem tentar identificar o episódio retratado, dada a extrema complexidade deste romance e suas personagens, reconhecemos na cena central o general Lu Bü (c. 153-199), personagem popularizada pelo seu capacete de duas “antenas”. Guerreiro de brilhante carreira militar, praticamente invencível, era designado como o “general voador” graças ao seu cavalo (Chi Tu) que conseguia percorrer milhares de quilómetros por dia. O tipo de pintura sugere-nos a fusão do modelo popular de criação livre da escola de Suzhou – de que são exemplo as 14000 pinturas que se encontram no Longo Corredor do Palácio de Verão (Yihe yuan) em Beijing - e o estilo mandarim utilizado nas obras de exportação. A moldura repete, em síntese, os elementos vegetalistas e simbólicos do anverso da folha. São alegorias tradicionais de bom augúrio, também usados na porcelana “Mandarim” contemporânea exportada para a Europa, onde os oleiros chineses conjugam as formas e estilos decorativos europeus com cenas familiares de mandarins ou paisagens com flores e aves, evocando ambientes exóticos ao ávido mercado ocidental, que os apreciava pela sua beleza decorativa e não pelo seu significado. As varetas são lisas na zona do colo e em filigrana de prata dourada ajouré, recortada e debruada no remanescente, decorada com elementos vegetalistas estilizados em esmalte azul e verde, tal como as guardas onde se destaca um ramo vegetalista de prata em relevo.Leques de filigrana com este tipo de trabalho esmaltado, designado cloisonné, foram sempre muito procurados pelos europeus. Durante a primeira metade do seculo XIX eram essencialmente produzidos em Macau mas, a partir do final da Primeira Guerra do Ópio alguns artífices transferiram os ateliers para as ilhas de Honan e de Hong Kong e, ainda para Xangai.O tema aqui escolhido está associado à figura de Lorde Napier, percursor na Primeira Guerra do Ópio, como que se enaltecesse os seus factos heroicos dos quais resultaram grandes benefícios para a coroa britânica, formalizados no Tratado de Nanquim. Deste pacto destacamos fim do regime regulatório do comércio em Cantão e a abertura de quatro novos portos ao comércio europeu; o pagamento de uma avultada indeminização em prata ao Reino Unido; e a cedência da ilha de Hong Kong a Inglaterra. A ilha Napier e o seu forte foram ocupados pelos ingleses em 1841 e restituídos aos chineses no final do conflito (1842), que logo procederam à reconstrução da fortaleza e a muniram de canhões para a defesa da dupla passagem do Rio das Pérolas, antes de chegar a Cantão. Ainda que os termos acordados no Tratado de Nanquim permitissem a entrada dos britânicos em Cantão, a falta de acesso a esta cidade persistia, e o governador de Hong Kong, John Davis (g. 1844-1848) ordenou em 1847 uma expedição punitiva que terminou com a apreensão deste e dos outros fortes ao longo do Rio das Perolas. A representação de chineses na ilha de Ersha e a tipologia das embarcações retractadas indica-nos que este leque terá sido produzido entre 1842 e 1847, período sob domínio chinês, provavelmente em Macau ou na ilha de Honan, para onde transitaram alguns fabricantes de leques depois da Primeira Guerra do Ópio.
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