Menino Jesus Bom Pastor, Goa, (indo-português), séc. XVII
Escultura goesa em marfim retratando o Menino Jesus Bom Pastor, admirável pela sua detalhada qualidade escultórica, revelando a mão de um eborário versado e com grande sentido estético. Nesta peça pertencente ao século XVII, está patente o episódio evangélico do Bom Pastor (João 10:1-21), a Parábola da Ovelha Perdida, em que Cristo guarda e defende as suas ovelhas (os fiéis) e traz para o redil a ovelha perdida (o pecador).
Num rochedo em socalcos minuciosamente esculpidos, a delicada decoração vegetalista e zoomórfica é revelada. Elegantes ramagens com folhas de palma, em representação da Árvore da Vida[1], brotam a partir de orifícios na retaguarda da escultura ebúrnea.
No seu cume, a figura do Menino, bem proporcionada, tem cabelos curtos, penteados com caracóis em madeixa, face arredondada, nariz adunco e lábios finos, traços distintivos da arte indo-portuguesa do século XVII. Como todos os Bons Pastores de origem indiana, o Menino está dormente. De Buda, recolhe a Sua atitude de êxtase[2], caracterizada pela expressão ausente mas de concentração expectante, os olhos fechados, o sorriso hermético, os dedos apoiados nas têmporas e a face inclinada sobre a mão direita. Veste a tradicional túnica de pastor com meias-mangas e que lhe cobre os joelhos, esculpida em pontas de diamante facetadas, representando o velo animal e debruada com afitados lisos. Está cingida na cintura por um cordão com nó de laçada. As pernas estão cruzadas, calça sandálias finamente entalhadas e apresenta os atributos tradicionais: cajado e cabaça suspensa à cintura, transportando 2 cordeiros, um sobre o ombro esquerdo e outro no regaço, ambos com o pelo esculpido em ponta de diamante. Sob o Menino, o seu rebanho espraia-se pela elevação, juntamente com as aves do paraíso, simbolizando as Almas de todo o Mundo.
A coroar a figura do Bom Pastor, ressalta Deus-Pai em «majestade pontifical» envergando a tiara papal - segundo o modelo tradicional criado no século XVII – , que abençoa com a mão direita e com a outra segura a orbe terrestre.
A peanha, de tipo canónico – com formato de rochedo - apresenta quatro registos sobrepostos[3]. No primeiro socalco, a Fonte da Vida (Fons Vitae) irrompe de uma taça, encimada por duas pequenas pias sobrepostas suportadas ao centro por um colunelo. O chafariz simboliza a «fonte de água viva» (João 4:10), depois «fonte da vida» na tradição bíblica, numa alusão a Cristo como Fonte da Vida das almas, suas ovelhas.[4] Dois jorros de água vertem do alto do fuste, dando de beber a um par de aves do paraíso, numa alegoria à Palavra Divina[5].
O terceiro socalco revela uma gruta com Santa Maria Madalena reclinada no seu interior, de longos e lisos cabelos soltos, vestida com uma longa túnica. Deitada sobre o lado direito, com a mão a suportar a face, semelhante à postura do Bom Pastor, aponta com o indicador esquerdo para um livro aberto, pousado sobre chão, aludindo às suas «atividade missionária e vida contemplativa». A Cruz de Cristo, um dos seus atributos, à apresenta-se à sua direita como símbolo do seu amor pelo Crucificado e da sua reverência pela Paixão do Senhor[6]. Dois enormes leões sentados ladeiam Maria Madalena.
Uma pequeníssima tarja de perlado emoldura o limite inferior da peanha.
A diversidade e complexidade iconográfica apresentada pela escultura confirma, como a provável fonte de inspiração, a utilização de modelos europeus por artesãos indianos, transmitidos através de xilogravuras e gravuras.[7]
Pelo forte sincretismo que contem, a imagem do Bom Pastor é considerada como a representação mais icónica e original da fusão de religiões cristã, budista e Hindu durante a Expansão Portuguesa[8]. A simbiose artística e iconográfica destas peças constitui um importante testemunho físico sobre a problemática religiosa na qual se insere a sua produção, conectando as preocupações da Igreja com a assimilação dos gentios para uma mais fácil conversão, com um claro afastamento iconográfico e estrutural dos protótipos europeus, contribuindo deste modo para a valorização destes objetos enquanto peças de arte híbridas.
Marta Silva Pereira
[1] Veja-se TÁVORA, Bernardo Ferrão de Tavares e, Imaginária Luso-oriental, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983, pp. 83-93; OSSWALD, Maria Cristina, O Bom Pastor na Imaginária Indo-portuguesa em Marfim (vol. 1), Porto: Dissertação de Mestrado em História da Arte, FLUP, 1996, p. 85
[2] Veja-se TÁVORA, Bernardo Ferrão de Tavares e, Imaginária Luso-oriental, p. 86; OSSWALD, Maria Cristina, O Bom Pastor na Imaginária Indo-portuguesa em Marfim, p. 82
[3] Veja-se OSSWALD, Maria Cristina, O Bom Pastor na Imaginária Indo-portuguesa em Marfim, p. 86-88; TÁVORA, Bernardo Ferrão de Tavares e, Imaginária Luso-oriental, p. 88.
[4] Veja-se MARCOS, Margarida Mercedes Estella, Marfiles de las províncias ultramarinas orientales de España e Portugal, Monterrey: G.M. Editores, 2010, pp. 283-287
[5] Veja-se DIAS, Pedro, A arte do marfim, o mundo onde os portugueses chegaram, Porto: V.O.C. Antiguidades, Lda., 2004, p. 70
[6] OSSWALD, Maria Cristina, O Bom Pastor na Imaginária Indo-portuguesa em Marfim, p. 109-110
[7] Veja-se MARCOS, Margarida Mercedes Estella, Marfiles de las províncias ultramarinas orientales de España e Portugal, p. 287; OSSWALD, Maria Cristina, O Bom Pastor na Imaginária Indo-portuguesa em Marfim, p. 79-81
[8]Veja-se- TÁVORA, Bernardo Ferrão de Tavares e, Imaginária Luso-oriental, p. 86
Receba as novidades!
* campos obrigatórios
We will process the personal data you have supplied to communicate with you in accordance with our Política de Privacidade. You can unsubscribe or change your preferences at any time by clicking the link in our emails.