Arqueta - escritório, séc. XVII
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Esta gaveta-escritório de tampo de deslizar, assente em pés de bola achatada em cobre dourado, apresenta estrutura de madeira de teca, parcialmente faixeada a ébano, e decorada com embutidos de ébano e cavilhas decorativas em marfim. As ferragens de cobre dourado a azougue, vazadas e recortadas, incluem cantoneiras, os três espelhos de fechadura e o puxador da tampa de deslizar.
De forma paralelepipédica e de provável uso sobre o estrado, possui uma gaveta em baixo e o poço da arqueta em cima, munido de escaninhos - para os instrumentos de escrita (penas, facas, lacre, etc.), papel, e documentos -, um deles com tampa basculante e sua fechadura, e bem assim um tinteiro e um areeiro em ébano.
De forma europeia, a sua decoração de enrolamentos vegetalistas muito estilizados e dispostos em simetria corresponde a um dos tipos decorativos praticados nas oficinas de marcenaria de Goa. Aí fazia-se uso quase exclusivo de materiais locais como a madeira de teca e de ébano, e também de marfim de origem africana comerciado pelos portugueses na Ásia, e de técnicas de marchetaria típicas deste centro de produção, resultando na perfeição do embutido face ao suporte e na inexistência de pinos metálicos para sua fixação, sendo as cavilhas de marfim mero artifício decorativo[1].
Raras peças desta mesma tipologia, de tampo de deslizar, conhecem-se produzidas em Taná na segunda metade do século XVI, caracterizadas pela sua marchetaria colorida (de madeiras diversas combinadas com marfim e osso tingido de verde), e também um belo exemplar integralmente em ébano provavelmente de fabrico goês, sendo tipologia pouco frequente nas produções marchetadas de Goa, caracterizadas pelo contraste entre a teca de tom laranja e o ébano cor de chocolate, pontuado pelo uso do marfim.
Imprescindíveis no interior de residências nobres e patrícias no reino, escritórios e escrivaninhas portáteis deste tipo tornar-se-iam requisito fundamental para funcionários, mercadores e comerciantes europeus, e também muito para missionários, que viviam e viajavam pela Ásia, encomendando-as na capital do Estado Português da Índia, onde existiam oficinas especializadas no seu fabrico, congregando artesãos ora hindus, ora muçulmanos, muitas vezes sob o comando de algum marceneiro reinol.
Hugo Miguel Crespo
Centro de História, Universidade de Lisboa
Bibliografia:
CRESPO, Hugo Miguel, A Índia em Portugal, um Tempo de Confluências Artísticas (cat.), Porto, Blueboook, 2021.
[1] Sobre esta produção goesa e suas características, veja-se Hugo Miguel Crespo, A Índia em Portugal, um Tempo de Confluências Artísticas (cat.), Porto, Blueboook, 2021, pp. 115-120.
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