An Indo-Portuguese Gujarati casket, India, Gujarat; 2nd half of the 16th century
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Provenance
Col. Pedro Costa (1870-1958), LisboaExceptionally rare silver-mounted rectangular tortoiseshell casket of dual pitched lid, certainly manufactured in a Gujarati workshop in the second half of the 16th century.
The case and the lid of this small casket were cut from plates of translucent speckled tortoiseshell from the Hawksbill Turtle (Eretmochelys Imbricata) and underlayed by gold leaf giving it deep contrasting tones and sophisticated beauty.
The plaques are joined at the angles by indented silver strips with large and exhuberantly decorated corner pieces, fixed by small seven-pointed star round-headed tacks and decorated with a common matrix of chased and repoussé motifs of animals, birds and swirling trifoil floral elements.
The hinges, lock, latch and handle are adorned according to the same chased and repoussé techniques following na identical decorative language. The lock is boxed and raised within a zigzag motif band frame and engraved with a bird and vegetal patterns. The latch is fixed to the lid by round-headed silver tacks. The decorative scheme is completed by a punctured
background that highlights the artistic accomplishment of the piece.
The two lid profiles are silver wrapped and each surfasse defined by a central axis of winding floral motifs, decorated symmetrically with pairs of animals, heads bent backwards, in
a depiction characteristic of early Middle Eastern art and often used in Mughal decorative compositions. A central rounded hoop and naturalistic snake head finials enrich the handle’s
twisted rope design.
The rarity of this casket relates not only to the precious and exclusive materials that it employs, and to the sophisticated manufacturing techniques involved in its construction, but also to its atypical two gabled architectural form alluding to popular Portuguese religious buildings, thus transforming it into a rather striking example.
The chased and repoussé decoration of scrolled vegetal patterns, al-tawriq in Arabic, with stylized leafs and split stalks, share a common root with Islamic Cordovan art of the 9th and 10th centuries.
According to Nuno Vassalo e Silva this type of Islamic derived decoration, of floral and vegetal scrolls interspersed with animals on a tightly punctured background ‘was a decorative scheme well known in Northern India’, and one that would later be widely assimilated and repeated by silversmiths in the various Indian Portuguese territories.
Este raro e precioso cofre da segunda metade do século XVI, utilizado originariamente como guarda-jóias, foi totalmente produzido com placas de tartaruga translúcida de cor dourada desprovida das características manchas que associamos tradicionalmente a este material exótico. Esta circunstância diz-nos que o cofre foi integralmente realizado com placas retiradas da parte ventral da tartaruga; placas mais finais, frágeis e mais difíceis de trabalhar. O processo físico pelo qual o material passou até se produzirem placas destas dimensões e espessura, sem juntas observáveis denomina-se autoplastia por indução térmica. Ao contrário do que se tem afirmado, é possível identificar com certeza a espécie animal da qual proveio o material deste e de todos os outros cofres produzidos seguramente no Guzarate, em Cambaia ou Surate, por este método. Isto porque das duas espécies de tartaruga marinha utilizadas na produção de objectos decorativos desde tempos imemoriais na Ásia, a tartaruga-verde (Chelonia mydas) e a tartaruga-de-pente ou tartaruga-de-escamas (Eretmochelys imbricata), apenas a última permite a autoplastia. Uma das mais antigas referências documentais a cofres de tartaruga, a exemplares concretos mas hoje desaparecido, é o que surge no inventário post mortem de Afonso de Castelo Branco, meirinho-mor da corte, de 1556: “hũu quoffre de tartaruga guarnjcido de prata vall - dois mil reais”. As proporções inusuais do presente cofre indicam estarmos em presença de uma sua reformulação ou restauro. Deve ter sofrido um acidente grave, muito provavelmente durante o seu transporte a bordo da Carreira da Índia, e logo restaurado à chegada a Lisboa. A frente e o tardoz corresponderiam às ilhargas do cofre original, assim amputado a cerca de um terço do seu comprimento original. Esta transformação implicou uma nova disposição das montagens de prata, nomeadamente a eliminação das gualdras originais (de que se observam vestígios da furação) e o reposicionamento da fechadura. A sua tipologia copia um protótipo quatrocentista europeu de cofre para custodiar preciosos livros de horas, sendo a tampa canelada ou ondulada uma característica rara de alguns destes cofres. Um raro exemplar desta tipologia pertence ao Musée de Cluny-Musée national du Moyen Âge, Paris (inv. NNI 952). As montagens deste nosso cofre são também inusuais, embora a sua decoração animalista, de lagartos (ou dragões), leões, veados e pássaros sobre fundo de enrolamentos vegetalistas e o recorte das cantoneiras de inspiração timúrida seja comum a um grupo bem conhecido destes cofres de tartaruga. Um dos mais conhecidos é o cofre (12,0 x 27,3 x 21,0 cm), com semelhante tampa canelada e montagens relevadas, da Igreja Matriz do Montijo. Curiosamente, nas dobradiças que coroam as linguetas do nosso e neste cofre do Montijo, vemos um rinoceronte indiano (Rhinoceros unicornis), sendo também idênticas as fechaduras em forma de escudo heráldico, diferindo apenas na lingueta, original no cofre do Montijo, com seu típico lagarto, e a do nosso cofre (cinzelada com motivos vegetalistas europeus), provavelmente datando do período em que foi transformado. Ao mesmo grupo pertencem os cofres, de grandes dimensões (30,5 cm de comprimento), do Monasterio de San Lorenzo del Escorial, Madrid (invs. 10044680; e 10044687), oferecidos pela imperatriz Maria de Áustria (1528-1603) a Felipe II de Espanha (r. 1556-1598) em 1589. O presente cofre distingue-se de todos quantos se conhecem deste raro grupo dado que das bandas de prata relevadas, provavelmente realizadas com recurso a matrizes metálicas (de bronze ou ferro) foram vazados os fundos, tornando mais leves as montagens e sublinhando o contraste com a tartaruga. É provável que esta diferença resida também na reformulação coeva que o presente cofre sofreu.
Hugo Miguel CrespoCentro de História, Universidade de Lisboa
Bibliografia:
Lison de Caunes, Jacques Morabito, L'écaille. Tortoiseshell, Paris, Éditions Vial, 1997
Hugo Miguel Crespo, Jewels from the India Run (cat.), Lisboa, Fundação Oriente, 2015
José Jordão Felgueiras, “Uma Família de Objectos Preciosos do Guzarate. A Family of Precious Gujurati Works”, in Nuno Vassallo e Silva (ed.), A Herança de Rauluchantim. The Heritage of Rauluchantim (cat.), Lisboa, Museu de S. Roque - Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1996, pp. 151-153
J. Frazier, “Exploitation of Marine Turtles in the Indian Ocean”, Human Ecology, 8.4, 1980, pp. 329-370
Ana García Sanz, “Relicarios de Oriente”, in Marina Alfonso Mola, Carlos Martínez Shaw (eds.), Oriente en Palacio. Tesoros Asiáticos en las Colecciones Reales Españolas (cat.), Madrid, Palacio Real de Madrid - Patrimonio Nacional, 2003, pp. 128-141
Séverine Lepape, Michael Huynh, Caroline Vrand (eds.), Mistérieux coffrets. Estampes au temps de La Dame à la licorne (cat.), Paris, Bibliothèque nationale de France, Musée de Cluny-Musée national du Moyen Âge, Lienart, 2019
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