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Obras
Itara - Figura de Antepassado, Ataúro-Timor-Leste, séc. XIX-XX
madeira25.5 × 5.0 × 6.0 cmF1460Exposições
Tribal Treasures in Dutch Private Collections’, Afrika Museum, Berg en Dal, Netherlands, 2008–2009 (cat. p. 131)Publicações
Castilho, Manuel, ‘Oriente, Ocidente. East, West.’, Manuel Castilho Antiguidades, 2025, p. 8Esta interessante escultura antropomórfica em madeira patinada, possivelmente sândalo, entalhada num estilo linear, quase “cubista”, representa a figura masculina de um antepassado ilustre, imagem espiritual típica da ilha de Ataúro, geralmente designada por itara.Com proporções que se afastam do naturalismo, esta figura estilizada de homem nu apresenta cabeça desproporcionadamente grande em relação ao corpo, com pequeno chapéu que recorda uma tigela invertida. As feições, angulosas e sumariamente delineadas, revelam o nariz triangular e os olhos semicerrados, numa atitude de introspeção. Essa expressão é reforçada pela incisão horizontal que esboça a boca, cujos extremos, virados para baixo, acentuam o carácter meditativo da figura.
Com postura de ligeira inclinação ventral, a escultura apresenta os membros superiores pendentes ao longo do corpo — os braços estão separados dos antebraços pelo que parece ser uma bracelete nos cotovelos — e tronco, mamilos e pénis representados de forma linear. As pernas, de secção cilíndrica e levemente fletidas, apoiam-se sobre blocos retangulares cujas ranhuras verticais sugerem a forma dos pés.
Meditativo e de olhos fechados, a postura estática, em abandono, pretende evidenciar estado de transe, aludindo a um indivíduo já falecido - um antepassado distante, fundador de uma linhagem familiar específica.
Habitualmente acompanhado por uma figura feminina, formando um casal — originalmente presos com cordas e vestidos — este tipo de imagem era colocado na casa dos chefes de linhagem, penduradas em postes adornados com ramos (rumah tara), a fim de obter proteção e bem-estar familiar. A quantidade de itaras refletia o estatuto dos antepassados da família, sendo que no contexto ritual em que eram usadas teriam também função protetora contra ladrões.[1]
Esta itara foi produzida durante o período da presença portuguesa em Timor e, apesar de não evidenciar diretamente a sua influência, reflete o contexto sociocultural que se vivia em Ataúro, nos finais do séc. XIX e nos inícios do séc. XX. Neste período houve um acentuar de imposições políticas, comerciais e administrativas que geraram um clima de revolta, tendo a ilha funcionado como ilha-prisão. Este ambiente teria contribuído para o reforço das artes tradicionais, conforme se pode ver pelo despojamento e, paradoxalmente, pela expressividade desta escultura.
Há peças semelhantes nos Musée du Quai Branly, em Paris, no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque e no Denver Art Museum.
Leonor Liz Amaral
[1] ROSSEL, Siebe, WENTHOLT, Arnold (eds.), Tribal Treasures in Dutch Private Collections, AFdH Publishers, 2008, p.131.
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