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Obras
Taça de beber (salva), Índia, Guzarate; ca. 1550-1600
madrepérola e latão; montagens em prata⌀ 29.3 cmF1475Esta salva de madrepérola, uma taça de beber, foi produzida na segunda metade de Quinhentos no Guzarate, na costa ocidental indiana, para o mercado português, tendo recebido na Europa um rebordo em prata. O mosaico de madrepérola na elevação hemisférica ao centro apresenta uma flor-de-lótus estilizada, enquanto a aba plana, um pouco levantada, completa esta composição floral num arranjo concêntrico de pétalas polilobadas; o rebordo revirado apresenta largas tesselas rectangulares. Conhecidas por salvas (do termo em português e espanhol, salvar “para salvar, provar os alimentos do seu senhor”, do latim salvo, “salvar”), ou seja, pela função que desempenhavam, tais objectos surgem registados nos inventários portugueses dos inícios do século XVI como taças para salva, utilizadas neste período em mesas principescas e aristocráticas para assegurar que o vinho não fora envenenado, no início da refeição, sendo depois expostas em escaparates com degraus ou mesas chamadas de copas ou copeiras.[1] Seguindo a forma do hanap europeu do período medieval (do frâncico *hnapp, por sua vez do proto-germânico *hnappaz, “copa”, “taça”), estas taças de beber circulares e pouco profundas apresentam uma elevação hemisférica no centro, aba levantada e rebordo revirado, não excedendo normalmente muito mais do que um palmo (ca. 20-30 cm). Com efeito, estas taças de beber, circulares e pouco profundas, constituem o desenvolvimento natural do phiale mesonphalos da Antiguidade, taças de libação com um onfalo central usado para segurar a taça apenas com uma mão, com os dedos indicador e médio dentro da concavidade central, enquanto o polegar a prende junto ao rebordo.
Adaptados ao gosto europeu após a chegada dos portugueses à costa ocidental indiana nos inícios de Quinhentos, os objectos produzidos em madrepérola no Guzarate podem ser divididos em dois grupos.[2] O primeiro inclui peças integralmente em madrepérola ou aplicadas sobre uma estrutura de madeira. O segundo é composto por objectos de madeira coberta por mástique negra embutida com madrepérola finamente cortada seguindo complexos padrões geométricos ou florais e, mais raramente, desenhos figurativos ou caligráficos. Objectos produzidos usando a primeira técnica, por vezes combinando a tartaruga, de que sobrevivam exemplares, incluem cofres, arquetas-escritório, tampos de mesa e tabuleiros de jogo reversíveis e outros objectos domésticos de menor dimensão, incluindo bacias grandes e médias, salvas - como a presente - , pratos de todos os tamanhos, pratos covos, gomis, pichéis, garrafas, taças, taças e outros recipientes para beber, castiçais, saleiros, talheres e caixas para especiarias e outras caixas redondas, e também armas como adagas, polvorinhos e maças. Os objectos produzidos usando a segunda técnica incluem cofres, escritórios, caixas de escrita, tabuleiros de jogo reversíveis, e também grandes bacias. Ambas as técnicas, feitas talvez nos mesmos centros de produção, utilizam material muito iridescente, em tons de rosa, verde e azul, da concha de Turbo marmoratus, gastrópode marinho que já foi comum no Índico nas dimensões necessárias para o marchetado espesso e a construção de parede dupla dos objectos domésticos.
Taças de beber guzarates de madrepérola desta forma são extremamente raros. Conhece-se apenas um outro exemplar (Ø 29,0 cm), com pequenas diferenças na decoração, mais complexa, na elevação hemisférica central; pertence a uma colecção particular portuguesa, Estoril-Lisboa.[3] Embora apresente também elevação hemisférica central, uma grande bacia (Ø 44,0 cm), de caldeira profunda e larga aba plana, outrora integrada na colecção principesca (Kunstkammer) do Arquiduque Ferdinando II do Tirol (r. 1564-1595) no Schloss Ambras, em Innsbruck (inv. KK 4095), segue um protótipo distinto. Ao contrário das salvas, as bacias eram utilizadas nas casas principescas, aristocráticas e patrícias portuguesas para a ablução ritual das mãos, a chamada “água-às-mãos”, antes e depois das refeições.[4]
[1] Veja-se Hugo Miguel Crespo, “À Mesa do Príncipe: Jantar e Cear na Corte de Lisboa (1500-1700)”, in Hugo Miguel Crespo (ed.), À Mesa do Príncipe. Jantar e Cear na Corte de Lisboa (1500-1700). Prata, madrepérola, cristal de rocha e porcelana, Lisboa, AR-PAB, 2018, pp. 50-114, nas pp. 69-71.
[2] As obras clássicas sobre o tema são de Simon Digby, “The mother-of-pearl overlaid furniture of Gujarat: the holdings of the Victoria and Albert Museum”, in Robert Skelton et al. (eds.), Facets of Indian Art, Londres, Victoria and Albert Museum, 1986, pp. 213-222; Bernardo Ferrão, Mobiliário Português. Dos Primórdios ao Maneirismo, vol. 3, Porto, Lello & Irmão Editores, 1990, pp. 114-122; José Jordão Felgueiras, “Uma Família de Objectos Preciosos do Guzarate”, in Nuno Vassallo e Silva (ed.), A Herança de Rauluchantim (cat.), Lisboa, Museu de São Roque - Santa Casa da Misericórdia de Lisboa - Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1996, pp. 128-155; e Sigrid Sangl, “Indische Perlmutt-Raritäten und ihre europäischen Adaptationen”, Jarbuch des Kunsthistorischen Museums Wien 3 (2001), pp. 262-287. Veja-se também Hugo Miguel Crespo, A Índia em Portugal. Um Tempo de Confluências Artísticas (cat.), Porto, Bluebook, 2021, pp. 26-58; e Idem, Guzarate & Portugal. Madrepérola, Tartaruga e Madeiras Exóticas, Lisboa, São Roque Antiguidades & Galeria de Arte, 2024, pp. 7-29.
[3] Helmut Trnek, Nuno Vassallo e Silva (eds.), Exotica. Os Descobrimentos Portugueses e as Câmaras de Maravilhas do Renascimento (cat.), Lisbon, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, pp. 129-132, cat. 31 (catalogue entry by Pedro de Moura Carvalho).
[4] Idem, ibidem, p. 128, cat. 30 (catalogue entry by Sigrid Sangl).
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