Nossa Senhora com o Menino

Nº de referência da peça: 
B296

Prata fundida, repuxada e cinzelada
Índia, Goa, século XVII (2a metade)
Dim.: 52,0 x 24,4 x 22,0 cm
Peso: 5125 g
Proveniência: Colecção particular, Lisboa

The Virgin and Child
Cast, repoussé and chased silver
India, Goa, 2nd half of the 17th century
Dim.: 52,0 x 24,4 x 22,0 cm
Weight: 5125 g
B296
Provenance: Private collection, Lisbon

Esta peça, impressionante pelas suas dimensões, o peso e pela superior mestria técnica da sua execução, é um tour de force da ourivesaria produzida na Índia sob domínio português e só se deixa comparar com algumas obras ligadas aos jesuítas de Goa e uma da Sé de Évora.
Representando Nossa Senhora da Conceição com o Menino e feita inteiramente em prata, terá sem dúvida sido produzida para um rico patrono ou instituição religiosa. Sobreviveu ao usual destino deste tipo de alfaias de prata, desmontadas e derretidas para produção de novas peças segundo novo gosto, dado os seus óbvios méritos artísticos, verdadeiramente excepcionais.
A imagem é composta por três partes: um pedestal quadrangular com volutas salientes decorado com querubins, a figura da Virgem e a do Menino.
O pedestal, alto e quadrangular, consiste numa espessa chapa de prata repuxada e cinzelada, com elementos por fundição em relevo soldados à estrutura e depois cinzelados; estes elementos, de provável fundição em areia, incluem painéis estreitos de estilo maneirista e as cabeças de querubim.
A Virgem em pé, fixa na base por quatro fios roscados soldados à base da figura dispostos nos pontos cardeais, é em espessa chapa de prata repuxada e cinzelada com excepção da cabeça, obtida por fundição, provavelmente em cera perdida. Os braços e ombros da Virgem foram produzidos por separado em chapa de prata e soldados ao corpo, enquanto as mãos, de fundição em areia, são fixas à túnica da Virgem através de rebites.
A figura oca do Menino, obtida de forma idêntica por fundição em cera perdida, é fixa à figura principal por dois fios roscados de fina execução; um mais longo ligando o pé esquerdo do Menino ao braço esquerdo da Virgem, e um mais pequeno (de cabeça achatada) fixando o braço direito do Menino (num gesto de bênção) ao torso da Virgem, que se enrosca pelo interior da figura principal.
A presença de orifícios roscados no topo da cabeça da Virgem sugere que a imagem tenha tido uma coroa, hoje desaparecida, enquanto dois parafusos (com cabeças em quadrifólio) fixos ao tardoz podem ter prendido um elemento hoje perdido, talvez um grande resplendor (com de raios de sol) em chapa de prata à semelhança do exemplar referido abaixo.
Embora graciosa, a imagem é hierática, traindo a sua origem indiana nas proporções, características faciais e o horror vacui da sua decoração cinzelada. A Virgem, representada em contemplação interior, de pé sobre o crescente lunar, segura no braço esquerdo o Menino com os braços estendidos, encontrando-se o braço direito estendido. Sem véu e mostrando as orelhas - algo que é característico das representações hindus de ídolos religiosos - e os seus longos cabelos enrolados, a Virgem enverga uma longa túnica que lhe cai em pregas sobre os pés. As vestes e manto são finamente cinzeladas com padrão de ferronnerie de estilo europeu, imitando um damasco ou brocado sobre fundo puncionado; o forro é de um padrão diferente, reticulado.
É curioso notar como no tardoz de um conhecido cofre-relicário de madeira revestido a prata, feito em Goa no final do século XVII para proteger um fragmento da sobrepeliz de São Francisco Xavier (1506-1552), encontramos um semelhante padrão têxtil ocidental, embora de execução menos refinada. Outrora no Colégio de São Paulo, conserva-se agora no Museum of Christian Art, hoje no Convento de Santa Mónica, Velha Goa (inv. 01.1.119). Estes complexos padrões têxteis, além dos motivos decorativos eruditos do maneirismo tardio na base, a “obra de laço” (cuir) e o friso de folhas de acanto, apontam datação na segunda metade do século XVII.
A iconografia de Nossa Senhora da Conceição adquiriu particular relevo na imaginária goesa em marfim a partir de meados do século XVII, depois da coroa do reino luso ter sido oferecida em 1646 à Virgem por D. João IV em acção de graças por ter libertado o reino dos sessenta anos de domínio espanhol (1580-1640).
Esta Nossa Senhora com o Menino compartilha muitas características estilísticas e de produção com uma muito conhecida escultura monumental (143 cm), em prata parcialmente dourada, repuxada e cinzelada, de São Francisco Xavier. Feita c. 1670 com prata que uma devota genovesa, Geronima Maria Francesca Sopranis, deixara em testamento para um ornamento destinado à Basílica do Bom Jesus em Velha Goa, ficou por séculos junto do túmulo do santo. Sabemos como em 1717 segurava um lírio de prata esmaltada e uma cruz de prata nas mãos, sendo os braços articulados (à semelhança do utsava murti hindu) para o efeito, recebendo atributos.
Outra peça, ainda que mais recuada, uma santa de prata (provavelmente Geracina) feita também em Goa nos inícios do século, trai idênticas características locais, sendo o seu alto nível de execução visível na qualidade da decoração cinzelada.
Um outro exemplar, comparável em dimensão (70,0 x 30,0 cm) e, também em iconografia, é uma grande escultura em prata de Nossa Senhora com o Menino em cuja inscrição podemos ler que foi mandada fazer por Diogo de Brito . Pertencente ao Museu de Arte Sacra da Sé de Évora, a figura com coroas da Virgem e do Menino e um grande resplendor, tudo de prata dourada com gemas e vidros coloridos, possui um grande rosário de contas de ouro pendente das mãos estendidas da Virgem, que ajudam a identificar a sua iconografia com Nossa Senhora do Rosário, figuração aliás de grande importância na Ásia sob influência portuguesa. De rosto e mãos cobertos de policromia alterando de alguma forma o facies indiano que porventura teriam (a serem originais), o trabalho de cinzel é igualmente de grande qualidade e o idêntico repertório decorativo, como se vindo das melhores oficinas lisboetas do reinado de D. Pedro II (r. 1683-1706), trai o mesmo eruditismo de modelos.
Conquanto a presença do crescente lunar no nosso exemplar, o facto das mãos da Virgem se encontrarem em posição idêntica à da peça eborense, autorizam a que se possa interpretar a iconografia da presente escultura em prata como correspondendo a Nossa Senhora do Rosário.
Não obstante a sua dimensão e importância, carecemos ainda de informação sobre a proveniência da nossa Virgem com o Menino de prata. Investigação nos inventários que nos chegaram das instituições religiosas de Goa, em especial datados do século XIX, não forneceu quaisquer indícios sobre o seu contexto original.
Dada a sua elevada qualidade, é sem dúvida um dos mais importantes objectos de prata alguma vez fabricados na Índia Portuguesa ainda em colecção particular, sendo certo ter sido produzida por artesãos locais goeses sob estrita supervisão lusa.

Hugo Miguel Crespo

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This exceptional sculpture, impressive for both its dimensions and its weight, as well as for the technical mastery of its execution, is a tour de force of Portuguese India made jewellery, only comparable to a small number of other extant examples connected to Jesuit Religious Houses in Goa and to one other sculpture at Evora Cathedral.
Portraying the Virgin of the Immaculate Conception with the Child, and entirely made in silver, it was most certainly created for a wealthy patron or a major religious institution. Furthermore, due to its truly exceptional artistic merits, it has survived the destiny of many such pieces which were dismantled and melted to be recast into other, more modern objects.
The image is composed of three separate elements; a plinth decorated with large protruding volutes and cherubs, the full body sculpture of the Virgin Mary and the independently cast figure of The Child Jesus.
The sturdy squared pedestal is composed by a thick plate of repoussé and chased silver with cast elements welded to the structure and equally chiselled. These elements, probably sand cast, are characterised by narrow Mannerist style panels and cherub’s heads. The Virgin Mary, standing and attached to the pedestal by four quatrefoil screws welded to the sculpture´s base, is made out of a thick sheet of repousse and chiselled silver, with the exception of the head, which was probably moulded by lost wax casting. The arms and shoulders were produced separately and welded to the body, while the sand-cast hands are riveted to the Virgin’s cloak.
The hollow and equally sand-cast sculpture of the Child Jesus is fixed to the larger figure by two finely made bolts; a longer one, fixing the Child’s left leg to the Virgin’s left arm, and a shorter flattened headed bolt that fastens the Child’s right arm, in raised, blessing gesture, to the Virgin’s torso, from the interior of the body cavity.
The evidence of threaded orifices to the top of the Virgin’s head suggests the presence of a now missing crown, while the two quatrefoil headed bolts attached to the sculpture’s back might correspond to structural attachments for a missing element, perhaps a large silver radiant halo, similar to the one described further along in this text.
Gracious but rather hieratic, the figure betrays its Indian origin in its proportions, facial characteristics and obvious decorative horror vacui. The Virgin Mary, portrayed in profound contemplation and standing on the lunar crescent, holds the Child, of outstretched arms, on the left, while keeping Her right arm identically outstretched. Unveiled and with exposed ears – a detail characteristic of Hindu religious idols – and long curly hair, the figure is attired in a long draped robe that hides the feet. The whole costume is finely chased, in a European style “ferronnerie” pattern that simulates damask or brocade, on a punctured ground, the lining decorated in a different lattice pattern.
A similar European textile design, albeit not as refined in execution, has been identified on the back of a late 17th century Goa made silver coated wooden reliquary that guards a fragment of Saint Francis Xavier (1506-1552) surplice. Once kept at Saint Paul’s College it now belongs to the Museum of Christian Art at the former Convent of Saint Monica in Old Goa (inv. 01.1.119). These complex textile patterns, in addition to the plinth’s erudite late Mannerist decorative motifs, the “obra de laço” and the acanthus leaves frieze, suggest and reinforce a second-half of the 17th century dating for this sculpture.
Iconography representing the Virgin of the Immaculate Conception acquires particular relevance in Goa from the mid-17th century onwards, once the Portuguese crown was formally gifted to the Virgin Mary by King João IV in 1646, as thanksgiving for intervening in freeing the Kingdom from 60 years of Spanish ruling (1580-1640).
This particular sculpture shares both stylistic and production characteristics with a well-known part gilt, repoussé and chiselled monumental image (143 cm) of Saint Francis Xavier. Made ca. 1670 from the silver bequeathed by a devoted Genoese, Geronima Maria Francesca Sopranis, specifically for the making of an ornament for Old Goa’s Bom Jesus Basilica, it remained for centuries close to the saint’s tomb. It was recorded in 1717 as holding as attributes an enamelled silver lily and a silver cross, reason why the arms were articulated, similarly to the Hindu utsava murti. Another silver example, albeit of earlier dating and probably depicting Saint Geracina, does also evidence identical local characteristics, its quality of execution clearly recognisable in the sophistication of the chiselled decoration.
Also comparable in size (70,0 x 30,0 cm) and related in its iconography is a silver image of The Virgin and Child that, according to the inscription featured, was commissioned by Diogo de Brito . Now belonging to Evora Cathedral Museum this large sculpture keeps both of its gilt silver crowns and a large radiant halo, set with stones and coloured glasses, and holds a large gold Rosary in the Virgin’s outstretched hands, details that allow for its identification as The Virgin of the Rosary, imagery of intense devotion in Portuguese controlled Asia. Of polychrome face and hands, details that somehow alter the Indian facial characteristics that the image might have portrayed, if indeed it is original, its chased decoration is of identical quality and follows an identical decorative repertoire which, as if produced by the best Lisbon workshops from the reign of King Pedro II, betrays the same erudition of models.
Despite the presence of the lunar crescent, the fact that the Virgin’s hands are represented in a position identical to the Evora example, allows for an identification of the present silver sculpture as the Virgin of the Rosary.
Notwithstanding its size and importance, we are still unsure of the original provenance of our Virgin and Child. Research carried out on the inventories of the various Goan Religious Houses, mostly dated from the 19th century, have not shed light onto its original context. However, for its exceptional quality it is undoubtedly one of the most important silver objects ever made in Portuguese India that remain in private hands, having most certainly been produced by local Goan artisans under close Portuguese supervision.

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