Hábito da Ordem de São Bento de Avis, Portugal, séc. XIX
Uma antiga ordem de cavalaria fundada no século XII pelo primeiro monarca português, a Ordem dos Cavaleiros de São Bento de Avis seguia a regra beneditina e estava sob a alçada dos cistercienses. Em 1789, o Papa Pio VI e a rainha D. Maria I de Portugal (r. 1777-1816) reformaram a ordem transformando-a numa instituição secular que, em 1834 após a extinção das ordens religiosas, perdeu as extensas propriedades que detinha.
Entre 1789 e 1834, a entrada de novos membros foi limitada a três Cavaleiros da Grande Cruz (aumentada para seis em 1796), quarenta e nove Cavaleiros Comandantes e um número ilimitado de Cavaleiros.
Tal como as outras ordens de cavalaria portuguesas, esta antiga ordem militar foi então transformada numa mera ordem de mérito, cessando também os privilégios que outrora constituíam parte vital da sua filiação. Foi finalmente abolida em 1910 com o fim da monarquia portuguesa
Este hábito da Ordem de Avis foi feito para ser suspenso de uma fita de seda verde ao redor do pescoço, sendo por isso chamado de lançar ao pescoço, em contraste com outros mais pequenos destinados a serem fixos à lapela, denominados de lapela.[1]
De estilo neoclássico, apresenta duas partes. Uma superior em forma de fita estreita com ramos esguios e pequenas folhas munido de argola por onde ficava suspenso o hábito. E uma secção inferior pendente que compreende a cruz. De prata, as suas gemas incolores cuidadosamente calibradas (quartzo hialino ou cristal de rocha) foram cravadas em cravação fechada sobre folheta reflectora.
Os estilos de lapidação utilizados são o talhe brilhante, a sua forma e contorno (redondo, coxim, oval, em pera, navette, etc.) adaptados à cravação metálica, e ainda, para os braços da cruz, o talhe esmeralda simplificado (sem degraus) com seus típicos cantos cortados na coroa e pavilhão. Munido no tardoz com sua argola oblonga por forma a permitir a entrada da fita de seda, este hábito foi posteriormente transformado em alfinete através da presença de uma haste.
Habitualmente, a cruz do hábito da Ordem de Avis seria verde, seguindo as cores heráldicas da ordem, sendo os exemplares mais valiosos cravados com esmeraldas e outros com materiais verdes de substituição, nomeadamente vidro.
No presente exemplar, todas as gemas são incolores e cravadas sobre folheta metálica reflectora nunca colorida.
Ao contrário dos coevos hábitos da Ordem de Cristo e mesmo da Ordem de Santiago, são raros os exemplares como o nosso hábito da Ordem de Avis, não se encontrando nenhum na colecção do Museu Nacional de Arte Antiga.[2]
Um raro hábito da Ordem de Avis de finais do século XVIII (9,4 cm de altura), cravejada de crisoberilos verde-claros e a cruz de vidros verdes lapidados, foi recentemente publicado por Diana Scarisbrick.[3] Um modelo desenhado para um hábito da Ordem de Avis com a cruz pintada de verde, de cerca de 1830, e outro para uma placa da mesma ordem, pertencem a um caderno de desenhos de José António Mourão do Arquivo da Casa José Rosas.[4]
Hugo Miguel Crespo
Centro de História, Universidade de Lisboa
[1] Veja-se Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, “As cores da honra: jóias-insígnias das ordens militares em Portugal (1750-1825)”, in M. Antonia Herradón Figueroa (ed.), II Congreso Europeo de Joyería. Vestir las joyas. Modas y modelos, Madrid, Ministerio de Educación, Cultura y Deporte, 2015, pp. 209-225. Sobre este tipo de jóia, veja-se também, António Filipe Pimentel, “A Honra e os seus ícones. Sobre a joalharia de função”, Oceanos, 43 (2000), pp. 94-110.
[2] Veja-se Leonor d’Orey, Cinco Séculos de Joalharia. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Lisboa, Instituto Português de Museus - Zwemmer, 1995, pp. 82-83.
[3] Veja-se Diana Scarisbrick, The S. J. Phillips Collection of Jewels of Portugal (cat.), London, Sotheby’s - S. J. Phillips, 2017, p. 51, cat. 35.
[4] Veja-se Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, “As cores da honra: jóias-insígnias das ordens militares em Portugal (1750-1825)”, in M. Antonia Herradón Figueroa (ed.), II Congreso Europeo de Joyería. Vestir las joyas. Modas y modelos, Madrid, Ministerio de Educación, Cultura y Deporte, 2015, p. 216, figs. 11-12.
Receba as novidades!
* campos obrigatórios
We will process the personal data you have supplied to communicate with you in accordance with our Política de Privacidade. You can unsubscribe or change your preferences at any time by clicking the link in our emails.