Cómoda D. João V - D. José I, Portugal, séc. XVIII
Imponente cómoda da época D. João V (r. 1706-1750), em madeira de nogueira e de estrutura bombée. O volume bojudo e simétrico do corpo acompanha o movimento ‘barroco’ em curva e contracurva, das ilhargas e das pernas, em continuidade.
Esta excepcional cómoda, de tampo liso com recorte ondulado e emoldurado, tem duas gavetas e um gavetão, com decoração entalhada e exuberantes ferragens detalhadamente cinzeladas em bronze dourado.
Na frente, a simplicidade das molduras das gavetas contrasta com o trabalho de gosto rocaille das ferragens, que apresentam elementos decorativos vegetalistas e concheados nos puxadores e espelhos, salientando-se águia de asas abertas - símbolo de poder - e elemento central em forma de coração.
O saial é baixo e entalhado com elemento central carnudo em concheado e volutas sinuosas, com envasamentos, cujo recorte é continuado por duas ramagens de folhas de acanto, rematando o corpo ou caixa da peça. Ao centro, a ligeira assimetria da plumagem e das volutas, formando uma espécie de cartela, confere movimento e dinamismo à ornamentação que, a par com a das ferragens, anuncia o estilo típico do reinado de D. José I (r. 1750-1777).
Os saiais das ilhargas, apesar de alguma simplicidade no entalhe do concheado intercalado com folhagem com voluta, revelam o mesmo tipo de assimetria que vai caracterizar o período do rocaille do reinado de D. José I.
A ondulação acentuada das pernas contribui para evidenciar a opulência que caracterizou a arte produzida no reinado do “Magnânimo”, terminando na típica ornamentação em pés de garra e bola, iniciada em 1710.
O realçar dos veios da madeira e da cor, de gosto inglês, confere um carácter expressivo à própria matéria desta peça de mobiliário D. João V. Já a estética das ferragens, com concheados, e as plumagens do saial, bem como a alternância de linhas côncavas e convexas da estrutura da cómoda, sugerem inspiração no estilo francês “Régence” (1715-23). Contudo, apesar destas características mais expressivas, apresenta uma sobriedade que remete para a marcenaria portuguesa produzida no século anterior.
Uma vez que no período de transição, correspondente à última década do seu reinado, se verificou perda de volume - quer nos elementos estruturais que lhe conferiam a robustez característica, quer na talha, assumidamente assimétrica - característica que não observamos no exemplar aqui estudado, podemos situar a produção desta singular cómoda do estilo D. João V, possivelmente no segundo quartel do séc. XVIII.[1]
Leonor de Liz Amaral
José António Proença, Mobiliário da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, M/C, 2002.
Reynaldo dos Santos, Oito Séculos de Arte Portuguesa, História e Espírito, Vol. 3, Empresa Nacional de Publicidade, 1950.
[1] Agradeço à Dra. Teresa Sande Lemos a ajuda que deu na identificação desta cómoda.
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