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Faqueiro com estojo para seis pessoas, D. João V, Portugal, Lisboa, ca. 1740-1745

ouro e aço - talheres; madeira, veludo e prata - estojo
43,5 x 27,0 x 18,0 cm
Peso: c. 1 400 g.
Atribuído a Manuel Roque Ferrão
B325

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Este extraordinário faqueiro de mesa, em ouro, conserva-se com o seu estojo original. Produzido em Lisboa na segunda metade da década de 1740, a sua notável sobrevivência - atendendo ao material nobre de que é feito, totalizando cerca de 1400 gramas de ouro - constitui um poderoso testemunho do consumo ostensivo de objectos neste metal precioso, em particular para a mesa, na corte portuguesa.[1]

Os estojos de faqueiro dispunham-se aos pares sobre aparadores, permitindo que servidores pudessem colocar talheres limpos para cada serviço. Considerando a escolha do material, este conjunto destinava-se a um contexto de refeição mais familiar e íntimo, servindo apenas seis comensais.

O estojo rectangular, com a sua frente em curva e contra-curva de carácter barroco e tampa plana e inclinada, encontra-se revestido no exterior a veludo de seda carmesim - cor habitualmente reservada à realeza - e forrado no interior a veludo de seda verde-escuro, ambos rematados com galão de prata. Provido de exuberantes montagens de prata, fundidas e cinzeladas (alça, espelho e aldraba da fechadura, e duas dobradiças no tardoz), o estojo revela, quando aberto, dezoito compartimentos dispostos em quatro renques.

Contém um conjunto de seis facas, seis colheres e seis garfos.[2] Com excepção das facas - com lâminas de aço e cabos em chapa de ouro repuxada, cinzelada e gravada, e preenchidos no interior com cola de cuteleiro -, as colheres e os garfos, em ouro maciço, foram forjados a partir de lingote, sendo depois finamente cinzelados e gravados a buril. Os cabos vazados, tanto das colheres como dos garfos, foram recortados a cinzel, enquanto as reservas em forma de escudo nas extremidades dos cabos (no reverso), de regra destinadas a monogramas - ou, mais provavelmente, à heráldica do proprietário -, ficaram sem gravar.

Segundo tradição familiar, este conjunto de talheres e seu estojo terão sido oferecidos pelo rei D. João V (r. 1706-1750) a uma das suas amantes residente no aro de Estremoz. Esta afirmação não é inverosímil. Os objectos de ouro eram estritamente reservados ao monarca e à família real, e o estilo - que conjuga, com notável elegância, o repertório barroco português de feição anterior, a ornamentação da Régence francesa e os motivos rocaille então introduzidos - aponta para os derradeiros anos do reinado de D. João V.

Este idioma estilístico de transição combina os tão característicos mascarões (na parte inferior dos dentes dos garfos e nas conchas das colheres, no ponto de ligação ao cabo, e, de forma mais notória, na aldraba do estojo), bem conhecidos das nossas pratas de aparato barroca dos inícios de Setecentos, com o motivo de treliça (quadrillage) da Régence e com o ornato experimental rocaille - até então inédito nas artes decorativas portuguesas - e que viria a generalizar-se sob o sucessor do rei, D. José I (r. 1750-1777).

Não ostentando marcas, a identidade do hábil ourives responsável por este faqueiro de ouro é difícil de estabelecer com segurança. Comparações com os raros objectos de ouro sobreviventes desta fase crucial de experimentação decorativa - que abrange os últimos anos do reinado de D. João V, a morte do rei em 1750 e a devastação de Lisboa no terramoto de 1755 - sugerem a oficina de Manuel Roque Ferrão (fl. 1728-1785), um dos mais prolíficos ourives de Lisboa. A sua longa carreira e o corpus documentado da sua obra abarcam os principais estilos decorativos de Seiscentos, do Barroco tardio e do apogeu do Rococó ao prenúncio do Neoclassicismo.


Hugo Miguel Crespo


[1] O faqueiro de ouro e o respectivo estojo são objecto de uma monografia, com contributos de vários autores, dirigida por Hugo Miguel Crespo (ed.), Magnânimo. Um Faqueiro de Ouro para o Rei de Portugal. Ouro ao tempo de D. João V, Lisboa, São Roque Antiguidades & Galeria de Arte, 2026.

[2] No que respeita às ligas de ouro, foi observada, exclusivamente nas facas, por observação à lupa binocular, a presença de inclusões metálicas de coloração cinzenta. A análise por espectrometria de fluorescência de raios X permitiu identificar estas inclusões como sendo constituídas por ósmio e irídio. A presença deste tipo de inclusões é indicativa da utilização de ouro de origem aluvionar no fabrico das ligas.

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