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Open a larger version of the following image in a popup: China Trade, Macao—Praia Grande, Escola chinesa, c. 1805

China Trade

Macao—Praia Grande, Escola chinesa, c. 1805
óleo s/ tela
21.0 × 28.5 cm
não assinado e não datado
D2008
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Extraordinária e deslumbrante vista panorâmica de Macau, estendendo-se de Sul para Norte sobre a emblemática Baía da Praia Grande, cenário onde se situa o porto exterior de Macau, situado à entrada do delta do Rio das Pérolas[1].

Construções de influência europeia prolongam-se até à orla da praia. Em primeiro plano, à esquerda, distingue-se a Fortaleza de Nossa Senhora do Bom Parto (1), que em 1755 foi remodelada apresentando, desde então, um amplo baluarte orientado para o mar, aqui bem visível. A natureza rochosa do terreno impôs um traçado irregular, com parapeitos providos de canhoneiras em tijolo, assentes sobre sólidas fundações de granito.

A partir desta fortaleza desenvolvia-se uma muralha de acentuada inclinação, que terminava na Colina da Penha, onde se ergue o Forte de Nossa Senhora da Penha de França[2], ponto em que se situaria o artista.

Seguindo o olhar, identifica-se a Igreja de São Lourenço (2), erguida pelos jesuítas em honra do seu orago. Considerada uma das mais antigas igrejas de Macau, foi inicialmente construída em madeira, posteriormente reedificada em taipa em 1618 e, mais tarde, em pedra, entre 1801 e 1803, onde se podem observar o coroamento das torres com fogaréus em forma de urnas[3], destruídos em 1846.

Seguindo o olhar encontramos o Mosteiro e Igreja de Santo Agostinho (3) (?), fundados no final do século XVI. O conjunto foi inicialmente edificado por frades agostinhos espanhóis, que o abandonaram em 1589, rumo a Manila, tendo sido ocupado por frades de origem portuguesa. Dois anos mais tarde, a comunidade transferiu-se para a Colina de Santo Agostinho, onde foi construída a igreja dedicada a Nossa Senhora da Graça.

O conde de La Pérouse[4] menciona que foi construído no convento agostiniano um observatório destinado a fins astronómicos e náuticos[5]. Refere ainda que, no lado direito da Igreja, existia uma torre com carácter amuralhado; esta informação é corroborada por fontes gráficas contemporâneas que fazem alusão a uma “torre primitiva”, com aspeto semelhante à da Igreja da Misericórdia, que rodeava a Sé[6]. Apesar de existirem dúvidas quanto à sua efetiva existência, não foi possível encontrar referências a esta estrutura na bibliografia consultada[7].

Na mesma direcção, onde o olhar se prolonga, identificamos a Fortaleza de Nossa Senhora do Monte (4), também denominada Fortaleza de São Paulo – talvez o mais importante baluarte, situado a cinquenta e cinco metros de altitude, num morro sobranceiro à cidade e no centro da península de Macau, junto ao Colégio da Companhia de Jesus. A seu lado surge uma fachada, que pensamos ser a Igreja da Assunção de Nossa Senhora (5) ou de São Paulo[8] - construída entre 1602 e 1640 e de que resta, atualmente, a frontaria que data de 1636 - assim como o Colégio de S. Paulo, localizado ao lado da igreja, ambos foram destruídos por um incêndio em 1835.

Em conjunto, a antiga Igreja da Madre de Deus, o Colégio de S. Paulo e a Fortaleza do Monte eram construções jesuítas, formando um conjunto que pode ser identificado como a "acrópole" de Macau.

E mais adiante ainda, a Fortaleza de Nossa Senhora da Guia (6) – que se encontra no ponto mais elevado de Macau, tornando-se num local de observação privilegiado. O Farol, construído em 1865, ainda não se vislumbra nesta representação.

Por fim, avistamos o Mosteiro e Igreja de São Francisco (7) – esta ultima fundada em 1579 sobre uma rocha. A Igreja teve a invocação de Nossa Senhora dos Anjos e, em 1780, já se encontrava em grande ruína, tendo ambos sido destruídos em 1861.

E, a seus pés, erguer-se-ia a Fortaleza de São Francisco (8), que em 1748 já se encontrava parcialmente destruída, com um grande pano de muralha derrubado. Só mais tarde, por volta de 1864 irá ser reformada com obra de alvenaria espessa.

Na Baía, quase rasante e de atalaia a este porto exterior da Praia Grande, o Fortim de São Pedro (9) ocupa uma posição central. Foi numa importante fortificação portuguesa, construída cerca de 1622 e formando, com o Forte de S. Francisco (8) a Fortaleza do Bom Parto (1), o principal sistema de defesa da Costa Sul de Macau.

A marginal ao longo da praia é povoada por edifícios mercantis e residências, com fachadas compactas, segundo o modelo tradicional do solar português, com poucas varandas corridas e galerias porticadas[9].

Na praia, uns transeuntes passeiam, enquanto no rio navegam cinco sampanas, perto da zona de rebentação das ondas, encontrando-se outras pequenas embarcações ancoradas, ao fundo. Mais afastada da margem, navegam 4 juncos.

A composição funciona como um verdadeiro “postal ilustrado”, afirmando visualmente o papel de Macau como entreposto estratégico no Sistema de Comércio de Cantão.

Inserida na tradição das Pinturas Comerciais de Macau, desenvolvidas com particular intensidade no século XVIII e início do XIX[10], esta obra é um excelente exemplo da circulação internacional destas imagens, seja como mercadorias, seja como recordações de viagem e objetos de prestígio. Estas representações constituem documentos visuais de grande valor histórico, revelando o crescimento económico e social de Macau, após as restrições impostas aos estrangeiros em Cantão[11].

Uma pintura a óleo sobre tela, datada de cerca de 1805 e pertencente à coleção de Carl L. Crossman, apresenta-se como idêntica a esta, reforçando a difusão e a padronização deste modelo iconográfico[12].


[1] A Identificação de alguns monumentos contou com o debate construtivo e o apoio do Dr.º Alexandre Correia, da Direcção Cultural – Centro de Documentação do Museu da Fundação Oriente, e do Eng.º José Afonso Lima, a quem agradecemos.

[2] DIAS, Pedro, Arte portuguesa no Mundo – Extremo Oriente, Lisboa, Público – Comunicação Social S.A., 2009, pp. 114 e 115.

[3] IDEM, Ibidem, p. 149; https://hpip.org/pt/heritage/details/490

[4] Cf.: Jean François Galaup, Conde de la Pérouse, (1741 – c. 1788), navegador Francês, na sua expedição naval, aporta em Macau, neste ano de 1786.

[5] DULKEN, H. W. – The worlds Explorers or travels and adventurs. London: Ward, Lock and Tyler, s./d..Apud: BARREIRA, Hugo Daniel da Silva, “A Arquitectura Religiosa de Origem Portuguesa em Macau: Contributos para um necessário estudo diacrónico”, Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património, Porto, Vol. IX-XI, 2010-2012, p. 191 (pp. 178-205)

[6] Alguns autores situam neste mesmo local a antiga Sé Catedral, dedicada à Natividade de Nossa Senhora e integrada no conjunto da Santa Casa da Misericórdia que também possuía uma torre amuralhada. O edifício da Sé, construído originalmente em taipa cerca de 1622 e melhorado em 1742, foi então reedificado em pedra c.1844, com a fachada reorientada a norte, ladeada de duas torres sineiras e coruchéus em forma de templete.

[7] BARREIRA, Hugo Daniel Silva, Op. Cit., p. 191.

[8] Igreja da Assunção de Nossa Senhora anexa e privativa do Colégio da Madre de Deus e conhecida como igreja de São Paulo.

[9] FERNANDES, José Manuel, “Macau entre os séculos XIX e XX, urbanismo e infraestruturas de 1820 a 1920. Cf.: https://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30035/2016

[10] OSSWALD, Cristina, “Globalizando Macau: Sobre as Pinturas de Comércio de Macau (séculos XVIII–XIX)” in Perspectiva Pictorum / Artigos Livres / v. 4, n. 1, jan-jun/2025, ISSN: 2965-1085.

[11] As restrições impostas pelo imperador Qianlong (1711-1799) à permanência estrangeira em Cantão favoreceram o crescimento económico e social de Macau, que se tornou local de residência, lazer e turismo das elites ocidentais.

[12] CROSSMAN, Carl L, The Decorative Arts of The China Trade – Paintings, furnishings and exotic curiosities, UK, Antique Collectors’Club, 1991, fig. 1, p. 410.

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