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Arca indo-portuguesa com vista da cidade de Cantão, séc. XVI/XVII (interior inícios do séc. XVII)

madeira de Angelim; fabrico de Cochim; interior lacado e dourado com vista de Cantão
67,5 × 150,0 × 79,5 cm
A593
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Esta imponente arca de madeira maciça integra um distinto grupo de mobiliário portátil produzido ao longo da costa sudoeste da Índia. O seu carácter compósito está intimamente ligado às redes comerciais portuguesas no contexto do mundo marítimo asiático. Executadas em madeira tropical densa e dotadas de ferragens de ferro, funcionais ou decorativas, estas peças foram concebidas para assegurar durabilidade, segurança e transporte a longa distância.


Se a escala substancial desta arca sublinha a sua função utilitária, o seu interior revela um notável grau de requinte. Totalmente revestido por laca vermelha intensa, constitui o suporte para a decoração dourada no interior da tampa, representando uma vista estilizada em perspetiva aérea da cidade portuária de Cantão (Guangzhou), principal centro do comércio externo chinês no delta do Rio das Pérolas. A imagem evoca subtilmente as redes comerciais globais em que objetos deste tipo circularam.


O interior apresenta sinais de restauro cuidado. Enquanto a pintura em laca no interior da tampa se encontra bem preservada, o revestimento das paredes internas evidencia desgaste compatível com o seu uso funcional ao longo do tempo.

A madeira de tonalidade castanho-avermelhada, de grão expressivo, deriva muito provavelmente da jaca-brava (Artocarpus hirsutus). Espécie nativa dos estados do sul da Índia — Kerala, Karnataka, Maharashtra e Tamil Nadu — onde é valorizada pela sua madeira resistente e duradoura. A produção destas arcas é geralmente atribuída a Cochim, na costa do Malabar, associação igualmente sugerida pela designação portuguesa angelim, derivada do termo malaiala anjili.

Essenciais tanto à vida doméstica como ao comércio de longa distância, arcas deste tipo serviam para o armazenamento e transporte de uma vasta gama de bens, incluindo pertences domésticos, géneros alimentares, objetos religiosos e mercadorias. Equipavam estabelecimentos privados, públicos, militares e religiosos nos entrepostos portugueses ao longo da costa indiana, acompanhando igualmente bens e indivíduos nas rotas marítimas. Encontram-se documentadas em numerosos inventários históricos, tendo sobrevivido vários exemplares.[1]


Tal como em Portugal — onde, desde o século XIII, as arcas constituíam uma das formas mais essenciais e versáteis de mobiliário de armazenamento[2] — mantiveram-se indispensáveis para colonos, oficiais, mercadores, marinheiros, soldados e membros de ordens religiosas no ultramar. A sua forma empilhável, com tampas planas que podiam servir como mesas, assentos ou mesmo leitos, evidencia a sua adaptabilidade. As dimensões variavam consoante a função, embora regulamentos como a provisão régia de 1575 procurassem normalizar os tamanhos para o transporte marítimo, limitando as arcas destinadas ao armazenamento a bordo a aproximadamente 55 cm de altura e profundidade, e 110 cm de largura.[3]

Construídas em madeira maciça e dotadas de ferragens e uma ou duas fechaduras, arcas deste tipo seguem um esquema estrutural consistente, exemplificado pela presente peça. O corpo é formado por quatro tábuas verticais unidas por encaixes simples em cauda de andorinha e assente sobre uma base fixada com pregos de ferro. A tampa, caracteristicamente saliente, apresenta no verso uma moldura de ripas finas, também unidas por encaixe, assegurando um fecho firme. É articulada por quatro dobradiças de anel em ferro na parte posterior, sendo as extremidades rebatidas dos pregos ocultadas por tachas circulares. Duas das mesmas cobrem as extremidades dos pregos na aresta frontal que fixam o fecho que se insere na placa da fechadura no painel frontal do corpo. A forma e o funcionamento das ferragens correspondem de perto aos modelos portugueses contemporâneos, evidenciando a transferência de práticas construtivas. Pegas laterais facilitam o transporte, enquanto os encaixes são reforçados por pequenas tachas.[4]


Em marcado contraste com o exterior sóbrio, o interior apresenta uma cena finamente executada a ouro. Representa uma vista estilizada da frente ribeirinha de Cantão, durante muito tempo o principal centro do comércio externo chinês. Enquanto capital provincial desde a dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.), Cantão serviu como um importante ponto de entrada para missionários budistas provenientes da Índia e do Sudeste Asiático. A partir do período Tang (618–907 d.C.), foi frequentada por mercadores do Sudeste Asiático, da Índia e da Pérsia. Acolheu uma significativa comunidade estrangeira, incluindo um bairro árabe bem estabelecido com a sua própria mesquita.[5] Em meados do século XVII, assumiu um papel central no fornecimento de bens chineses à Coroa portuguesa e no abastecimento do enclave próximo de Macau, consolidando firmemente a sua posição nas redes globais de comércio da Época Moderna[6] — importância essa subtilmente refletida na presente imagem.


A paisagem urbana, enquadrada por um cenário montanhoso e delimitada por duplas muralhas voltadas para o rio, juntamente com marcos arquitetónicos como o minarete da Grande Mesquita do período Tang e o Pagode das Flores do século XI, identifica Cantão. Está incluída a expansão meridional de 1566 que ligou a Cidade Nova à Cidade Antiga, permitindo datar a cena do final do período Ming, antes da conquista manchu em 1644.


A frente ribeirinha é animada por numerosas embarcações de pesca e navios de carga, transmitindo a intensa atividade deste centro comercial. Figuras de diferentes escalas e trajes, indicativos de estatuto e ocupação, povoam a cena. No centro do registo inferior, três oficiais Ming encontram-se em conversa, identificáveis pelos seus característicos chapéus alados (wushamao) e pelas suas vestes compridas de mangas largas, ladeados por assistentes. Estes últimos apoiam-se em bastões cónicos e usam chapéus com penas compridas (zaolijin), o que os identifica como uma espécie de mensageiros do yamen. Estes zao serviam como guardas pessoais no escritório ou na residência de burocratas locais ou mandarins (yamen) — dois dos três oficiais no centro.[7] À direita, dois oficiais eruditos montados, com chapéus quadrados (fangjin), aproximam-se através de uma ponte, acompanhados por assistentes que transportam um guarda-sol e livros. À esquerda, um grupo correspondente de oficiais montados avança, seguido por assistentes que transportam guarda-sóis cerimoniais e equipamento. Entre estes grupos surgem outras figuras letradas e criados dirigindo-se ao grupo central de burocratas Ming. Numerosos indivíduos, representados de menor escala, dedicam-se a atividades quotidianas ao longo da margem e sobre a água.

Para além do presente exemplar, são conhecidas duas arcas comparáveis em coleções portuguesas com decoração policroma no interior das tampas, e não laca asiática-— uma de temática religiosa e outra representando uma frota de embarcações portuguesas no oceano.[8] Como atestam inventários contemporâneos, estas “arcas da Índia” continuaram a integrar interiores de elite em Lisboa até à segunda metade do século XVIII, onde surgem ocasionalmente descritas como “simples no exterior e lacado no interior”.[9]


Importa notar que a presente arca não é única na representação da frente ribeirinha de Cantão. Exemplos relacionados incluem composições muito semelhantes — uma numa coleção privada no Porto e outra na coleção da Fundação Millennium BCP, [10] em Lisboa. No exemplo lisboeta, figuras trajadas à maneira de nobres portugueses surgem tanto numa embarcação como em terra, no contexto chinês, possivelmente refletindo uma encomenda mais personalizada associada a um indivíduo envolvido no comércio da cidade.


Para criar contraste e detalhe, a decoração combina diferentes técnicas de pintura a ouro (miaojin), incluindo folha de ouro aplicada (tiejin) e ouro em pó (nijin), com detalhes incisos e pintados a negro. Este tipo de laca vermelha com decoração dourada era particularmente apreciado na China do final do período Ming. Tanto em grandes painéis decorativos de armários e arcas como em objetos menores, cenas figurativas, paisagens e motivos florais e de aves auspiciosas eram especialmente comuns na região de Guangdong.[11]


Estas decorações em laca inserem-se na categoria mais ampla das obras compósitas luso-asiáticas, um conjunto distinto e relativamente raro que combina estruturas de madeira do sul da Ásia com laca chinesa — sobretudo mobiliário portátil de uso secular e religioso, bem como escudos de aparato circulares de fidalgos portugueses. Geralmente produzido por encomenda individual, refletem a mobilidade e adaptação de objetos e ideias no espaço da Ásia portuguesa. A sua natureza heterogénea — frequentemente reunindo elementos de diferentes regiões e momentos, associados a usos e preferências europeias — é característica da Índia portuguesa dos séculos XVI e XVII.


Em muitos casos, objetos encomendados num local do espaço luso-asiático eram posteriormente enriquecidos com laca noutro, muito provavelmente em oficinas especializadas na província de Guangdong, em ou nas proximidades de Macau e Cantão. A sua composição estratificada, o carácter intercultural e a estreita ligação às redes comerciais globais contribuem significativamente para a sua raridade e valorização, assegurando o seu lugar entre as mais expressivas manifestações da cultura material luso-asiática.[12]


Esta pintura em laca do período Ming, representando uma cidade portuária desejada, preservada no interior de uma arca itinerante, pode ser entendida simultaneamente como memória pessoal e afirmação simbólica. Encomendada quer como recordação da prosperidade e do fascínio de Cantão, quer como afirmação visual de participação no seu comércio.


Apenas um reduzido número de obras comparáveis em laca regional Ming sobreviveu na China, o que confere particular relevância a estes exemplares preservados.


Ao combinar o ofício do sul da Índia com a representação de um dos mais importantes centros comerciais do mundo moderno, esta arca constitui um testemunho notável da cultura material dos intercâmbios interculturais, moldados pela mobilidade, pelo encontro e pelo comércio marítimo global.


(tradução livre de texto original de Ulrike Körber)



Bibliografia


Chang, T.-T. (1969). Sino-Portuguese Trade from 1514 to 1644: A Synthesis of Portuguese and Chinese Sources. Leiden: E. J. Brill.

Dias, P. (2013). O Mobiliário Indo-Português. Coimbra: Gráfica de Coimbra.

Felgueiras, J. J. (1994). “Arcas indo-portuguesas de Cochim.” Oceanos, n.º 19/20 (setembro–dezembro), pp. 34–41.

Ferrão, B. (1990). Mobiliário Português: Dos Primórdios ao Maneirismo, vol. III: Índia e Japão. Porto: Lello & Irmão.

Franco, C. (2007). O mobiliário das elites de Lisboa na segunda metade do século XVIII. Lisboa: Livros Horizonte.

Garner, S. H. (1979). Chinese Lacquer. Londres: Faber and Faber.

Körber, U. (2019). The Journey of Artifacts: The Study and Characterization of a Nucleus of Lacquered Luso-Asian Objects from the 16th and 17th Centuries. Tese de doutoramento, Instituto de Investigação e Formação Avançada, Universidade de Évora.

Lou, W. (2018). “A Preliminary Study of Mongol Costumes in the Ming Dynasty.” Social Sciences in China, vol. 39, n.º 1, pp. 165–185.

Richard, J. C. (2017). The Hong Merchant’s Gardens during the Canton System and the Aftermath of the Opium Wars. Tese de doutoramento, University of Sheffield, Faculty of Social Sciences, Department of Landscape.

Sørensen, H. H. (1996). “Guangzhou.” Em: J. Turner (ed.), The Dictionary of Art, vol. 13. Londres e Nova Iorque: Grove’s Dictionaries / Macmillan, pp. 736–737.

Peterson, B. L. (1996). “Lacquer: Ming.” Em: J. Turner (ed.), The Dictionary of Art, vol. 13. Londres e Nova Iorque: Grove’s Dictionaries / Macmillan, pp. 16–20.

Ptak, R. (2007). “Anatomie einer Eintracht: Portugal und China im 16. und 17. Jahrhundert.“ Em: M. Kraus & H. Ottomeyer (eds.), Novos Mundos Neue Welten – Portugal und das Zeitalter der Entdeckungen. Berlin/ Dresden: Deutsches Historisches Museum/ Sandstein Verlag, pp.163–173.


[1] Dias (2013, 223-228), Felgueiras (1994, 36), Ferrão (1990b, pp.23, 25, 31).

[2] Ferrão (1990a, 193).

[3] Dias (2013, 224).

[4] Dias (2013, 223-228), Felgueiras (1994, 36), Ferrão (1990b, pp.23, 25, 31).

[5] Sørensen (1996).

[6] Chang (1969).

[7] Lou (2018, 171), https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_hanfu_headwear, https://en.wikipedia.org/wiki/Yamen. Thanks to Julie Chang, Ching-Ling Wang, and Patricia Frick for assisting in identifying the bodyguards.

[8] Dias (2013, 226-227).

[9] Franco (2007, 96).

[10] Fundação Millennium BCP, Inv. no. 404; 141 x 70 cm, em Ptak (2007, 167).

[11] Pederson (1996, 17), Garner (1979, 195-203).

[12] For further reading on such heterogeneous lacquered Luso-Asian items, consult: Körber (2019).

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