Colher em Madrepérola e prata de Guzarate, Índia c. 1620-1640.
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“Exótica”, FCG, Lisboa 2000 (cat. pp. 168-70)Rara e preciosa colher indo-portuguesa do seculo XVII, com concha em madrepérola e cabo em prata, fabricada a partir do gastrópode marinho Turbo marmoratus, concha característica da província indiana de Guzarate e muito apreciado na Europa, principalmente a partir do segundo quartel de Quinhentos.
A forma segue os protótipos europeus em metal da época, com concha ovalizada e pouco escavada.
O cabo, de forma galbada, apresenta três anéis salientes e termina em “casco de animal”. Uma fenda cavada e uma roda saliente no cabo sugerem um tachão (rebite). Uma charneira permitiria na versão original a articulação do cabo, recolhendo-o na concha, funcionalidade esta não compreendida pelo artífice no desenho ou na gravura que lhe fora fornecida.
A inclusão do cabo sobre a concha é feita, na frente e no tardoz, pela justaposição de um trifólio em prata com filete, gravado a buril junto ao rebordo, e fixo por dois rebites do mesmo material.
Os talheres mais abundantes à mesa de reis e príncipes eram as colheres, que assumiram, no século XVI, uma grande importância em toda a Europa, uma vez que, a maioria dos alimentos eram consumidos em pequenos pedaços ou sob a forma de ensopados. Eram também utilizados para servir o açúcar ou especiarias, considerados então como dois bens preciosos e guardados dentro de estojos específicos, feitos à medida, e facilmente transportáveis[1].
Nesta época, os portugueses começaram a trazer para o Reino vários objetos executados em Turbo marmoratus - exportando-os por vezes para as cortes europeias[2] - entre eles, colheres e garfos, alguns dos quais viriam a receber montagens em prata já no velho continente.
São muito raras as colheres de prata “em casco de animal”. Conhecem-se peças feitas na época greco-romana, particularmente em Pompeia e, a partir do século XIV, na Holanda,[3] estes bem documentados, na centúria de seiscentos, pelos pintores holandeses nas naturezas-mortas.[4]
Exemplos coevos podem ser encontrados no inventário da Kunstkammer do príncipe Arquiduque Fernando II do Tirol, feito em 1596 e nas coleções do Musée National de la Renaissance à Écouen.
Esta pequena e importante colher, de cabo curto e ergonómico, com origem rastreada no final do século XVI, apresenta montagens de características indo-portuguesas e foi provavelmente produzida para um figura da nobreza ou para um alto dignitário ibérico.
[1] Simon Moore, Op. cit, p. 13
[2] Nuno Vassalo e SILVA (coord.) A Herança de Rauluchantim Lisboa, C.N.C.D.P., 1996, p. 137.
[3] E. M. Ch. F. Klijn, Eet – en Sierlepels in Nederland Tot ca. 1850, De Tijdstroom, Lochem, 1987, p. 15.
[4] Willem Claesz. Heda, Un Dessert (c. 1637), Museu do Louvre (Inv. nº 1319).
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