Placa em marfim, "Nossa Senhora do Rosário com o Menino São Domingos de Gusmão e São Francisco de Assis", Filipinas, Manila, séc. XVII
Esta placa delicadamente entalhada em marfim foi produzida por artesãos chineses ou mestizos de origem chinesa em Manila nas Filipinas, concebida enquanto suporte visual para práticas devocionais promovidas tantos pelos jesuítas como pelos franciscanos e outras ordens religiosas na Ásia, no seu trabalho missionário e, também, como objectos para exportação, nomeadamente para a América Central e do Sul, e para a Península Ibérica.[1]
Descobertas arqueológicas recentes, nomeadamente do naufrágio de um galeão de Manila, o Santa Margarita (1601) ao largo das ilhas Marianas (Ladrones), oferecem uma riqueza de informação sobre a cronologia e produção de esculturas devocionais de marfim feitas por mestres entalhadores chineses e filipinos nas Filipinas nos inícios do século XVII. Trata-se de uma produção que, de facto, antecede em meio século a produção de escultura ebúrnea em Goa.[2]
Esta placa, de remate acuminado e provavelmente secção central de um tríptico, notável pela qualidade do entalhe, fazendo sobressair por vezes, e perigosamente dada a fragilidade do material ebúrneo, certos elementos iconográficos em relação ao fundo, apresenta uma cena sem dúvida fielmente copiada de uma gravura hoje desconhecida.[3]
Assim, ao centro, dentro de uma moldura oval que é também um rosário ou terço, com suas seis contas maiores (apenas quatro visíveis) em forma de rosa florida com suas folhas, e seis dezenas das mais pequenas, vemos Nossa Senhora do Rosário (coroada e assente no crescente lunar) com o Menino, cada um com seu rosário, ladeados por anjos que seguram o grande rosário, e encimados pela pomba do Espírito Santo e no topo uma fiada de novelos de nuvens tipicamente chinesas.
Esta cena central é ladeada por casario, que funciona como pano de fundo verista para a cena abaixo aqui descrita: à esquerda e em primeiro plano, São Domingos ajoelhado com seu livro ao peito, e com o cão segurando a tocha acesa, elemento simbólico da ordem dominicana; à direita, São Francisco de Assis, com Crucifixo ou Cruz de São Damião e seu hábito franciscano; entre os dois santos um orbe encimado por cruz, simbolizando o domínio espiritual do rosário.
A presente placa é em tudo semelhante à secção central do encaixilhado em moldura de ébano com aplicações de prata dourada, que pertence ao Museo de América, Madrid (inv. 12.251), o que sugere que ambas as esculturas terão sido produzidas numa mesma oficina, com base no mesmo modelo gravado.
Uma placa com o mesmo modelo gravado e com a particularidade de possuir um tímpano semicircular com a figuração do Espírito Santo, foi recentemente publicada.[4] Embora mais complexa na sua iconografia, refira-se a existência de um desenho original de Maarten de Vos (†1603) desta temática, hoje no British Museum, Londres (inv. 1946,0713.1050), que serviu de modelo à placa central de um tríptico filipino em marfim, desta cronologia, recentemente publicado.[5]
Hugo Miguel Crespo
Centro de História, Universidade de Lisboa
Bibliografia:
BAILEY, Gauvin Alexander, “Translation and metamorphosis in the Catholic Ivories of China, Japan and the Philippines, 1561-1800”, in Nuno Vassallo e Silva (ed.), Ivories in the Portuguese Empire, Lisboa, Scribe, 2013, pp. 233-290.
CHONG, Alan, “Christian ivories by Chinese artists. Macau, the Philippines, and elsewhere, late 16th and 17th centuries”, in Alan Chong (ed.), Christianity in Asia. Sacred art and visual splendour (cat.), Singapore, Asian Civilisations Museum, 2016, pp. 204-207.
CRESPO, Hugo Miguel Crespo (ed.), A Arte de Coleccionar. Lisboa, a Europa e o Mundo na Época Moderna (1500-1800), Lisboa, AR-PAB, 2019.
CRESPO, Hugo Miguel, Comprar o Mundo. Consumo e Comércio na Lisboa do Renascimento, Lisboa, AR-PAB, 2020.
ESTELLA MARCOS, Margarita, Marfiles de las provincias ultramarinas orientales de España y Portugal, Ciudad de México, Espejo de Obsidiana, 2010.
TRUSTED, Marjorie, “Survivors of a Shipwreck: Ivories from a Manila Galleon of 1601”, Hispanic Research Journal, 14.5, 2013, pp. 446-462.
[1] Alan Chong, “Christian ivories by Chinese artists. Macau, the Philippines, and elsewhere, late 16th and 17th centuries”, in Alan Chong (ed.), Christianity in Asia. Sacred art and visual splendour (cat.), Singapore, Asian Civilisations Museum, 2016, pp. 204-207.
[2] Marjorie Trusted, “Survivors of a Shipwreck: Ivories from a Manila Galleon of 1601”, Hispanic Research Journal, 14.5, 2013, pp. 446-462.
[3] Para alguns exemplares comparáveis quanto à qualidade do entalhe, alguns cuja fonte de inspiração gravada de origem europeia foi possível identificar, veja-se Hugo Miguel Crespo (ed.), A Arte de Coleccionar. Lisboa, a Europa e o Mundo na Época Moderna (1500-1800), Lisboa, AR-PAB, 2019, pp. 334-338, cat. 49.
[4] Veja-se Gauvin Alexander Bailey, “Translation and metamorphosis in the Catholic Ivories of China, Japan and the Philippines, 1561-1800”, in Nuno Vassallo e Silva (ed.), Ivories in the Portuguese Empire, Lisboa, Scribe, 2013, p. 274.
[5] Hugo Miguel Crespo, Comprar o Mundo. Consumo e Comércio na Lisboa do Renascimento, Lisboa, AR-PAB, 2020, pp. 180-183, cat. 31.
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