Placa / Biombo de mesa, China, séc. XVII (2ª metade)
Pequena placa rectangular, ou folha, lacada e dourada representando uma figura de europeu transportando uma caixa comprida seguido pelo seu cão e, no reverso, uma composição ou natureza-morta, provavelmente sobre uma mesa, com dois vasos.
Durante a dinastia Ming (1368-1644) o termo pingfeng é utilizado para designar biombo ou corta-vento de uma folha, imóvel e com base (zuopingfeng), outros havendo constituídos por número variável de folhas (três a cinco), conhecidos por weiping.
Dos primeiros, uns há em que é possível remover a folha da base (chapingshi zuopingfeng) e outros onde tal não é possível, constituindo uma peça única (zuopingfeng).
Versões miniaturais, tal como o presente biombo, surgem representados na pintura da dinastia Song (960-1279), também utilizados no período Ming, à cabeceira da cama, como biombos de travesseiro (zhenping) ou em cima da mesa de trabalho de um letrado, estes conhecidos por yanping ou “biombo de tinta em pedra”, utilizados não apenas sobre a mesa da elite intelectual, mas também em longas mesas, junto com bronzes antigos, peças em jade entalhado ou formações rochosas naturais (conhecidas por gonshi), aí servindo função meramente decorativa.[1] Exemplares de biombos de mesa com folha em pedra, normalmente um tipo de mármore cujas variações de cor induzem os burocratas e letrados chineses à contemplação da natureza, conhecem-se por xiaozuopingfeng.
A presente placa, dadas as suas dimensões, proporções e iconografia, serviria como folha solta de um biombo de mesa, faltando-lhe, assim, a típica base, porventura entalhada e lacada. Encontra-se desgastada em ambos os lados, com perda de leitura iconográfica no reverso, o que é consentâneo não apenas com a sua antiguidade, mas também com o intenso uso a que foi certamente sujeita.
A folha de madeira foi inicialmente coberta de laca escura ou negra, recebendo decoração em relevo a ouro sobre laca de cor vermelha e castanha. Tem uma cercadura a laca dourada com embutidos de madrepérola no anteverso, provavelmente da concha do gastrópode marinho Haliotis spp. ou abalone, dada a sua coloração e iridescência.
Nesta frente vemos, uma figura europeia masculina - provavelmente um mercador português, talvez mesmo um cristão-novo de origem sefardita - com chapéu de abas largas, vestindo gibão, roupeta, calças e meias, que avança para a direita segurando com as mãos uma longa caixa rectangular, provavelmente contendo um precioso rolo de seda chinesa. É seguido pelo cão, aqui representado como um leão budista.
O reverso apresenta uma composição ao mesmo tempo decorativa e simbólica - provavelmente de teor auspicioso, embora seja difícil a sua interpretação, dado o seu desgaste - com dois vasos, assentes em bases elevadas, seguindo as formas dos bronzes arcaicos chineses: um ding de quatro pés e forma rectangular - recipiente para a preparação de pratos de carne e uma das formas mais importantes do repertório destes vasos rituais - e um gu, de forma tubular alargando no bocal e na base, com nó central - um dos mais característicos vasos para vinho do período arcaico - aqui usado para conter e exibir flores. Junto ao ding, encontra-se a silhueta de um ceptro ou ruyi, com sua característica cabeça em forma de lingzhi, ou cogumelo da imortalidade (Ganoderna lucidum).
Utensílio e decoração da mesa de um letrado chinês, elite culta que, nos finais da dinastia Ming (1368-1644) preferia mobiliário produzido em madeiras preciosas e lisas com sistemas complexos de assemblagem reveladores da mestria dos carpinteiros[2] -, certo é que, a iconografia desta rara e importante peça de mobiliário lacado, é um unicum de grande valor historiográfico e se deverá ao gosto do encomendante europeu, provavelmente executado nas zonas costeiras da província de Guangdong, caso de Cantão (ou Guangzhou).
Hugo Miguel Crespo
[1] Sobre esta tipologia, veja-se Wang Shixiang, Connoisseurship of Chinese Furniture. Ming and early Qing Dynasties, Vol. 1, Hong Kong, Art Media Resources, 1990, pp. 89-92.
[2] Sobre o mobiliário deste período e as escolhas da elite chinesa, veja-se Nancy Berliner, Beyond the Screen. Chinese Furniture of the 16th and 17th Centuries (cat.), Boston, Museum of Fine Arts, 1996.
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