Escultura Ritual - Ítara - Figura de Antepassado, Timor Português (Aitos), final do século XIX - início do século XX
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Texto introdutório - As Ilhas de Timor
As relações dos portugueses nas ilhas de Timor, situadas na extremidade oriental da Insulíndia, remontam aos inícios do séc. XVI, na sequência da conquista de Goa (1510) e Malaca (1511), e do protetorado sobre Ormuz (1515), importantes entrepostos que permitiram criar rotas marítimas comerciais no litoral asiático.
Ataúro é uma pequena ilha, localizada entre a grande ilha de Timor e as ilhas vulcânicas da Indonésia, a norte da atual capital – Díli, aparecendo na cartografia portuguesa desde 1512. Contudo, a primeira viagem dos portugueses a esta ilha terá ocorrido mais tarde, em 1515, durante o reinado de D. Manuel I (1495-1521), empreendida pelo capitão de Malaca, Rui de Brito Patalim.[1] A presença lusa em Solor e Timor irá terminar só no ano 2000, tendo-se tornado independente dois anos mais tarde.[2]
Antes da chegada dos portugueses, os navegadores chineses, malaios e javaneses, já procuravam adquirir a preciosa madeira de sândalo autóctone de Timor, importante para a produção de incensos, muito utilizados na vida quotidiana das regiões banhadas pelo Mar do Sul da China, em numerosas cerimónias e rituais religiosos, em ritos budistas e nas piras funerárias dos hindus mais abastados.[3] De facto, na interação secular com comerciantes chineses e árabes, Timor é mencionado no tratado chinês “A Descrição dos Povos estrangeiros” (ca. 1225), como a terra de Ti-wu, onde existe muita madeira de sândalo, com uma referência também às carapaças de tartaruga, de Eretmochelys imbricata, e alguma prata, que abasteciam a China.[4]
A madeira de sândalo-branco (santalum album), apreciada pela sua fragância e qualidades medicinais, foi também utilizada na arte, contando-se entre as mercadorias mais cobiçadas de Timor, tal como era o mel e a cera, havendo também referência ao trafico de escravos, tal como mencionado em fontes escritas do séc. XVI, como por exemplo, por Tomé Pires, em Suma Oriental (1514-15) e Duarte Barbosa (1516).[5] Os comerciantes portugueses monopolizaram o tráfico do sândalo, abastecendo os mercados da Índia e do Sudeste Asiático, maioritariamente realizado por um grupo não oficial de intermediários portugueses, conhecidos nas ilhas de Solor e de Timor por topazes. Em troca, levavam alguns bens de prestígio, como o ouro, porcelanas, panos indianos e armas de ferro, que serviam de ofertas diplomáticas aos chefes locais e reis[6], incluindo estanho e chumbo.
Quanto à organização sociopolítica local, António Pigafetta registou que a única embarcação sobrevivente da frota de Fernão de Magalhães, a nau Vitória da expedição de circum-navegação, fez uma paragem em Timor em 1522, na costa norte da ilha. O secretário de Magalhães relata que a parte ocidental da ilha era governada por reis, a quem os pequenos chefes prestavam “vassalagem”, e que que o povo andava despido, usando as mulheres nos braços, até aos cotovelos, muitas manilhas de ouro e latão.[7]
Na segunda metade do séc. XVI, os missionários dominicanos estabeleceram-se em Solor (ilha situada entre Timor e as Flores), iniciando a evangelização das populações. Apesar de o cristianismo ter irradiado às ilhas vizinhas, nesta altura Timor permaneceu à margem dessa evangelização, sendo que a presença mais regular dos portugueses ocorreu em 1702, com a chegada do governador António Coelho Guerreiro que mandou construir a primeira fortificação com o objetivo de intensificar a missionação. Atauro foi colonizada entre 1702 e 1975, seguindo-se a ocupação indonésia e a japonesa.[8]
A partir do séc. XIX, o território começou a ganhar autonomia relativamente ao Governo da Índia, tornando-se dependente de Macau em 1844 e obtendo autonomia administrativa em 1894.[9] Nos finais do séc. XIX, a parte Leste de Timor, incluindo Ataúro, estabelecia ligação com outras colónias.
Em posição sentada, com as costas direitas e o tronco com ligeira inclinação para a frente, a figura masculina apresenta os braços cingindo as pernas dobradas junto ao ventre. Esculpida em madeira, de feição acentuadamente estilizada, representa também uma imagem de um antepassado distante, característica das tradições do Sudeste Asiático.
À semelhança das esculturas humanas produzidas em Timor, apresenta a fisionomia esquematicamente entalhada, destacando-se a configuração da cabeça, cortada no topo e maior do que o tronco. Com as pernas desproporcionadas em relação ao corpo, assenta sobre base cilíndrica, revelando uma imagem invulgar dentro do género e até surpreendentemente “moderna”.
O estilo sintético desta escultura remete para o culto dos antepassados deste povo, em que os ritos funerários refletem a importância dada principalmente aos membros da nobreza falecidos. Os rituais desta sociedade evidenciam respeito e veneração pelos antecessores da comunidade, fonte da existência humana, essencial para o bem-estar que se obtém através da sua observância e oferendas.
A representação humana em posição sentada faz parte da imagética central da arte desta região, sendo que na sua maioria encontra-se ligada a ideias de bem-estar e proteção, particularmente dos grupos da nobreza, que colocavam estas esculturas em altares.[1] Apesar deste exemplar da São Roque revelar um carácter artístico próprio, as figuras acocoradas de antepassados são comuns às esculturas tradicionais da austronésia, como por exemplo, do arquipélago das Filipinas e das Molucas.
Leonor Liz Amaral
[1] David Henkel in CHON, Alan (ed.), Devotion & Desire, Cross-cultural art in Asia, New Acquisitions, ACM- Asian Civilisations Museum, Singapura, 2013.
[1] In LOUREIRO, Rui Manuel, Notícias de Timor nas Fontes Portuguesas dos Séculos XVI e XVII, Revistas Científicas do UCP, 2015, pp.180-181; TELES E CUNHA, João M., “Timor e o Comércio do Sândalo”, Os Espaços de um Império, Estudos, Ciclo de Exposições Memórias do Oriente, 1999, p. 228.
[2] A colónia portuguesa em Timor-Leste vai de 1596 a 1975.
[3] LOUREIRO, Rui M., Notícias de Timor nas Fontes Portuguesas dos Séculos XVI e XVII, 2015, p.180, 182; TELES E CUNHA, João M., “Timor e o Comércio do Sândalo”, 1999, p. 226.
[4] In ALPERT, Steven G., The Carver’s Hand, Sculptural Arts of Timor and Atauro, 2024, p. 3; TELES E CUNHA, João M., “Timor e o Comércio do Sândalo”, 1999, p. 227.
[5] In LOUREIRO, Rui M., Notícias de Timor nas Fontes Portuguesas dos Séculos XVI e XVII, 2015, pp.180-181.
[6] Idem, pp. 229-230.
[7] Pigafetta in LOUREIRO, Rui M., Notícias de Timor nas Fontes Portuguesas dos Séculos XVI e XVII, 2015, pp.181-183; Pigafetta in TELES E CUNHA, João M., “Timor e o Comércio do Sândalo”, 1999, pp. 228-229.
[8] Em 1859, é firmado um tratado entre Portugal e Holanda, fixando a fronteira entre o Timor Português (atual Timor-Leste) e o Timor Holandês (Timor Ocidental).
[9] DIAS, Pedro, Extremo Oriente, Arte de Portugal no Mundo, Editor Público – Comunicação Social, SA, 2009, pp. 133-134.
BIBLIOGRAFIA
ALPERT, Steven G., The Carver’s Hand, Sculptural Arts of Timor and Atauro, 2024.
[https://www.artoftheancestors.com/blog/the-carvers-hand-timor-atauro]
CASTILHO, Manuel, Oriente, Ocidente. East West, Manuel Castilho Antiguidades, 2025.
DIAS, Pedro, Extremo Oriente, Arte de Portugal no Mundo, Editor Público – Comunicação Social, SA, 2009.
CHON, Alan (ed.), Devotion & Desire, Cross-cultural art in Asia, New Acquisitions, ACM- Asian Civilisations Museum, Singapura, 2013.
GONÇALVES Marisa Ramos, "A ilha-prisão de Ataúro durante a ocupação indonésia de Timor-Leste: histórias de encarceramento, resistência e legados contemporâneos", e-cadernos CES, 37, 2022. [https://journals.openedition.org/eces/7084]
LOUREIRO, Rui Manuel, Notícias de Timor nas Fontes Portuguesas dos Séculos XVI e XVII, 2015, pp. 177-198, Revistas Científicas do UCP. [https://revistas.ucp.pt/index.php/povoseculturas/article/view/8994/8862]
TELES E CUNHA, João M., “Timor e o Comércio do Sândalo”, Os Espaços de um Império, Estudos, Ciclo de Exposições Memórias do Oriente, 1999, pp. 225-233.
ROSSEL, Siebe, WENTHOLT, Arnold (eds.), Tribal Treasures in Dutch Private Collections, Afrika Museum, Berg en Dal, Netherlands, AFdH Publishers, Tribal Art Collector’s Society, 2008.
https://timor-leste.gov.tl/?p=29
chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/82190/2/37787.pdf
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